
Após meses de atraso e disputas políticas, o Congresso finalmente aprovou o Orçamento de 2025. O governo manteve a meta de déficit zero, mas o texto final projeta um superávit de R$ 15 bilhões, bem acima da previsão inicial de R$ 3,7 bilhões. No entanto, essa promessa de equilíbrio fiscal esconde um jogo de prioridades que favorece setores políticos e corporativos, enquanto programas essenciais sofrem cortes.
Uma das principais marcas do Orçamento aprovado é a generosidade com os parlamentares. O relator, senador Angelo Coronel (PSD-BA), destinou mais de R$ 50 bilhões para emendas — um valor recorde. O montante, que inclui as emendas individuais e de bancada de execução obrigatória, assegura aos congressistas recursos para irrigar suas bases eleitorais em 2025.
Enquanto isso, áreas como educação e assistência social tiveram cortes significativos. O programa de incentivo à escola em tempo integral, que ampliaria o acesso à educação de qualidade, perdeu R$ 4,8 bilhões. O Bolsa Família, carro-chefe das políticas sociais do governo, foi reduzido em R$ 7,7 bilhões. Já o programa Pé-de-Meia, que incentiva estudantes do ensino médio a permanecerem na escola, não recebeu garantia de recursos no Orçamento, e sua execução dependerá de remanejamentos ao longo do ano.
Se de um lado os programas sociais sofrem cortes, de outro, categorias privilegiadas garantiram aumentos expressivos. As despesas com pessoal cresceram R$ 27,9 bilhões, incluindo R$ 22 bilhões para assegurar um reajuste de 9% para a maioria dos servidores do Executivo. Além disso, recursos adicionais foram reservados para atender demandas da Previdência (R$ 8,3 bilhões), seguro-desemprego (R$ 338,6 milhões) e auxílio-gás (R$ 3 bilhões).
O Orçamento foi aprovado de forma simbólica, sem o registro nominal de votos, após um processo acelerado que gerou revolta em parte dos parlamentares. A líder da Minoria na Câmara, Caroline de Toni (PL-SC), criticou a pressa na aprovação de um documento com mais de 3 mil páginas:
“O relatório só foi publicado de madrugada. Como debater algo tão importante assim? Em um país sério, isso jamais aconteceria.”
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) e a bancada do Novo foram os únicos a se manifestarem contra a proposta. A oposição acusou o governo de manobrar para aumentar sua popularidade, destinando mais recursos a determinadas áreas em detrimento de outras.
O senador Rogério Marinho (PL-RN) apontou que o governo usou artifícios fiscais para cumprir artificialmente a meta de déficit zero:
“O governo está subtraindo recursos do Fundo Social do pré-sal para tapar buracos. Passaram três vezes por cima do próprio arcabouço fiscal.”
No fim das contas, o Orçamento de 2025 reflete a velha prática do toma-lá-dá-cá. Enquanto setores estratégicos perdem bilhões, o Congresso se protege com emendas generosas, e servidores garantem reajustes expressivos. A promessa de responsabilidade fiscal do governo se sustenta sobre cortes que afetam diretamente a população mais vulnerável.
O Orçamento agora segue para sanção do presidente Lula, mas, no Brasil, a peça orçamentária raramente é definitiva. Emendas, ajustes e remanejamentos ao longo do ano podem alterar ainda mais a distribuição dos recursos. O que já está claro, porém, é que a política do faz de conta segue firme: o discurso de responsabilidade fiscal convive com aumentos para setores privilegiados, enquanto a população paga a conta.
SIMPLE NACIONAL Simples Nacional antecipa prazo e empresas já podem escolher regime para 2027
ORÇAMENTO 2027 Bolsa Família sem reajuste em 2027: a conta política chegou
DÍVIDA PÚBLICA Brasil gasta como se não houvesse amanhã, enquanto a dívida dispara
IMPOSTO DE RENDA Último lote da restituição do IR 2026 é pago nesta segunda; saiba consultar
CRISE ECONÔMICA Quebradeira empresarial: Brasil termina primeiro semestre com 6,3 mil empresas em recuperação judicial
GUERRA COMERCIAL Brasil perde força no braço de ferro com os EUA e Lula agora tenta reabrir canal com Trump Mín. 25° Máx. 38°