
Nos últimos anos, um fenômeno tem chamado a atenção de especialistas em comportamento e saúde: a geração Z (jovens entre 18 e 25 anos) está reduzindo o consumo de álcool ou até mesmo abandonando completamente as bebidas alcoólicas. Essa tendência, identificada em pesquisas no Brasil e em outros países, reflete um novo olhar sobre o bem-estar e os impactos do álcool no corpo e na mente.
De acordo com um levantamento realizado pela Mind & Hearts, empresa do grupo HSR Specialist Researchers, 36% dos jovens brasileiros afirmam consumir álcool apenas mensalmente ou menos. Esse número é superior ao registrado entre os millennials (32%) e a geração X (32%). Além disso, 88% dos entrevistados da Geração Z manifestaram interesse em reduzir ou abandonar o consumo de bebidas alcoólicas.
Arthur Guerra, psiquiatra e coordenador do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio-Libanês, explica que essa mudança de comportamento está ligada à busca por uma vida mais equilibrada. "Os jovens de hoje têm uma preocupação maior com a saúde, desde a alimentação até a qualidade do sono e o bem-estar mental. O consumo de álcool, para muitos, se torna incompatível com esses objetivos", afirma.
Outro fator que pode estar impulsionando a diminuição do consumo de álcool entre os jovens é o impacto das redes sociais na imagem pessoal. Mariana Thibes, doutora em sociologia e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), observa que o medo de exposições embaraçosas online pode ser um inibidor importante. "A embriaguez, que antes era vista como parte da diversão, agora é associada à perda de controle e pode gerar situações desconfortáveis compartilhadas na internet", explica.
Com a crescente moderação do consumo de álcool, a indústria de bebidas também tem se reinventado. Produtos como cervejas e drinks sem álcool estão em alta, acompanhando o crescimento desse público. Um levantamento da consultoria Euromonitor mostra que o consumo de bebidas zero álcool no Brasil saltou de 133 milhões de litros em 2018 para 752 milhões em 2024, e a expectativa é que esse volume ultrapasse 1 bilhão de litros nos próximos anos.
Naira Maneo, sócia-diretora da Mind & Hearts, destaca que as opções sem álcool não são apenas uma alternativa para quem já consumia bebidas alcoólicas, mas estão se tornando parte de um novo estilo de socialização: "Baladas sem álcool, eventos ao ar livre e atividades esportivas estão substituindo bares e festas como principais formas de lazer para muitos jovens."
A mudança de hábitos da Geração Z pode parecer uma revolução definitiva no comportamento dos jovens, mas especialistas alertam que é cedo para afirmar se essa tendência se consolidará ao longo das próximas décadas. Dados da pesquisa Covitel 2023 indicam que, apesar da menor frequência de consumo, quando bebem, os jovens ainda ingerem doses elevadas de álcool. Cerca de 21% das pessoas entre 25 e 34 anos relataram consumir sete ou mais doses por ocasião.
Outro ponto de preocupação é o possível aumento do uso de outras substâncias, como a maconha. "Como médico, me preocupa porque nenhuma droga é inofensiva", alerta Arthur Guerra. Embora o consumo de álcool esteja diminuindo, isso não significa necessariamente que os jovens estejam livres de outros comportamentos de risco.
Seja por saúde, imagem pública ou novas formas de socialização, a relação dos jovens com o álcool está em transformação. O que antes era visto como essencial para a diversão, hoje é questionado por uma geração que valoriza o autocuidado e a busca por equilíbrio. Resta saber se essa tendência se manterá no futuro ou se novos padrões de consumo emergirão com o tempo.
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