
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, anunciou nesta sexta-feira (24) que o governo reduzirá alíquotas de importação para conter a alta dos preços dos alimentos, uma medida que gerou mais perguntas do que respostas. A declaração foi feita após reunião com o presidente Lula e outros ministros, mas a participação de Costa no anúncio de medidas econômicas, tradicionalmente lideradas pelo Ministério da Fazenda, levanta questionamentos: por que o ministro Fernando Haddad, titular da pasta, está sendo deixado de lado?
Costa afirmou que a redução de alíquotas será aplicada aos produtos cujos preços internacionais estiverem mais baixos que os nacionais. "Atuaremos na redução de alíquotas para forçar o preço a vir pelo menos para o patamar internacional", disse. Ele enfatizou que não haverá congelamento de preços ou subsídios, destacando que as expectativas para 2025 são positivas, devido ao aumento da produção agrícola.
Porém, a fala de Rui Costa vem acompanhada de contradições. Mais cedo, ele classificou a redução de alíquotas como inviável, levantando dúvidas sobre a consistência de suas declarações. Além disso, a proposta surge horas depois de uma polêmica envolvendo sua sugestão de flexibilizar prazos de validade de alimentos, prontamente descartada após repercussão negativa.
A interferência de Rui Costa em pautas econômicas é inusitada e sugere disputas internas no governo. Haddad, que deveria liderar as medidas de combate à inflação, foi escanteado das declarações mais recentes. Enquanto isso, a Fazenda e o Banco Central divergem sobre a regulamentação de cartões de alimentação, um dos tópicos abordados na mesma reunião.
Divergências internas também permeiam o diagnóstico da alta de preços. Enquanto os ministérios ligados à agricultura apontam o impacto do dólar e eventos climáticos, a área econômica analisa a demanda internacional por produtos brasileiros e a pressão sobre commodities como carne e café.
A falta de clareza sobre como as medidas serão implementadas alimenta dúvidas sobre a eficácia das ações. Costa afirmou que reuniões com produtores, supermercados e frigoríficos serão realizadas para buscar sugestões de estímulo à produção. No entanto, até agora, nenhuma medida concreta foi detalhada.
A equipe econômica defende o fortalecimento da agricultura familiar como solução. O aumento de 43% no volume de recursos do Plano Safra e os contratos de opção para a produção de arroz são citados como medidas bem-sucedidas, mas resta saber se elas serão suficientes para conter a alta nos preços da cesta básica.
A palavra “intervenção”, usada por Costa em declarações anteriores, foi substituída por “medidas” após críticas. Segundo o ministro Paulo Teixeira, o termo foi um "equívoco de comunicação". Porém, o episódio evidencia a dificuldade do governo em articular suas propostas de forma clara e coesa.
Com declarações contraditórias e um protagonismo inusitado da Casa Civil, a pergunta que fica é: até que ponto Rui Costa está preparado para assumir um papel central em decisões econômicas? Ou será que, mais uma vez, estamos diante de uma trapalhada que poderá comprometer a credibilidade do governo no combate à inflação?
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