
Uma democracia depende de liberdade — política, jornalística, sindical e empresarial. Sem esses pilares, uma nação não pode se autodenominar livre. No entanto, o que se observa no Brasil, especialmente no Piauí, é uma sociedade cada vez mais asfixiada por um sistema que lembra a distopia de George Orwell.
O autor britânico, em sua obra 1984, alertou sobre um Estado policialesco, que controla não apenas ações, mas também pensamentos e emoções. Antes disso, em A Revolução dos Bichos, Orwell criticou a degeneração de movimentos populares em regimes autoritários e hierárquicos. Hoje, o cenário piauiense parece ecoar essas advertências.
Medo e conformismo: o novo normal do empresariado
Há poucos meses, durante a campanha para a Prefeitura de Teresina, um candidato, mesmo com histórico de má gestão e condenações judiciais, recebeu apoio irrestrito de uma parcela do empresariado local. Esse fenômeno expõe uma verdade desconfortável: essa parte da classe produtiva agiu como um rebanho, movida pelo medo do "Grande Irmão".
Esse segmento da elite empresarial cedeu à pressão política, abandonando qualquer análise crítica sobre a capacidade do candidato de gerir a capital. Enquanto isso, o candidato vencedor — médico, humanitário e com histórico limpo — foi praticamente ignorado pelas forças econômicas. Por quê? O que temiam? Repressão? Retaliação fiscal? O controle invisível, mas onipresente, descrito por Orwell, parece ter moldado o comportamento de parte da classe produtiva.
A mídia como braço do Grande Irmão
A campanha eleitoral também revelou a submissão irrestrita da mídia local. Jornalistas, comentaristas políticos e influenciadores digitais vestiram a camisa de um candidato, abafando críticas e criando uma falsa unanimidade. Era como se o público assistisse a um reality show manipulado, onde a vitória do candidato da mídia já estivesse garantida - ao menos na narrativa oficial.
No entanto, o resultado das urnas contrariou as previsões manipuladas. O candidato que supostamente perdia nas pesquisas e na mídia venceu com folga, provando que o eleitorado teresinense não aceita cabresto e não delega sua escolha a grupos econômicos ou políticos. Essa lição deveria servir de alerta para empresários e políticos: o povo sabe enxergar além das narrativas fabricadas e nao costuma cometer o mesmo erro duas vezes seguidas.
A cegueira de grande parte do empresariado
Mais grave ainda, ao apoiar cegamente um candidato sem respaldo popular, esse empresariado piauiense revelou não apenas sua falta de visão estratégica, mas também sua disposição em abrir mão de sua independência. Agiram como um rebanho, seguindo a tendência ditada pelos detentores do poder e ignorando o impacto dessa decisão no desenvolvimento da capital.
Em vez de pensar no fortalecimento do setor produtivo de Teresina como polo econômico capaz de atrair novos empreendimentos, optaram por barganhas de curto prazo, sem considerar o futuro da capital e do Piauí. Esse comportamento míope não apenas compromete o crescimento da cidade, mas também perpetua a dependência de favores políticos.
É óbvio que esse grupo não representa, nem de longe, o pensamento hegemônico do empresariado local. Mas, muitos apostaram nos dois lados da disputa, na tentativa de garantir benefícios futuros, enquanto outros ficaram na expectativa do que viria, buscando vantagens pessoais.
São poucos os que pensam no coletivo. Não percebem que, se o Estado vai mal, se a capital fica estagnada, os negócios também não prosperam. Essa lógica subverte a ordem natural das relações políticas e empresariais. Em lugar nenhum do mundo o setor produtivo é tão submisso ao governo. Pelo contrário, o bom gestor ouve o setor produtivo para impulsionar o desenvolvimento.
Exemplos a serem seguidos
Em alguns Estados, como o Ceará, a boa relação entre governo e setor produtivo tem resultado na atração de novas empresas e na expansão das já existentes. Isso eleva a arrecadação e gera emprego e renda para a população. Não é raro o governo ouvir as forças produtivas antes de tomar decisões econômicas.
O medo que atrasa
Essa inversão de valores e relações, que leva à submissão, cria um entrave para o crescimento de ambos os lados. O poder público precisa recompensar o apoio empresarial, enquanto o setor produtivo fica atrelado aos interesses políticos. O medo do “Grande Irmão” impede o setor de crescer e ampliar sua atuação.
Uma lição para o futuro
Esse episódio evidencia a necessidade de um empresariado mais consciente de seu papel social e econômico. A liberdade não é um luxo, mas um requisito essencial para a construção de uma sociedade próspera e democrática. Submeter-se ao medo e às pressões políticas é abrir mão desse princípio fundamental.
Se a elite produtiva do Piauí quiser manter sua relevância, precisa abandonar o papel de figurante e recuperar sua voz. É hora de valorizar a independência, rejeitar o cabresto e resistir ao controle do Grande Irmão. O eleitor já deu seu recado. Resta saber se o empresariado terá coragem de ouvi-lo.
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