
A eleição de Donald Trump para um novo mandato presidencial nos Estados Unidos provoca uma série de reflexões e sentimentos mistos para mim. Seu retorno à Casa Branca acende tanto sinais de entusiasmo quanto de preocupação, especialmente no contexto das relações internacionais e das consequências para o agronegócio brasileiro.
No primeiro mandato, a guerra comercial entre Estados Unidos e China beneficiou, de certa forma, o Brasil, ao abrir maior espaço para nossas exportações ao mercado chinês. Contudo, estamos mais limitados agora, já que 37% de nossas exportações agrícolas já têm a China como destino. “Se houver algum aumento [das exportações agrícolas à China], vai ser marginal, porque outros países também vão se beneficiar. Acho que o efeito disso sobre a exportação agrícola brasileira não vai ser muito grande”, avaliou o embaixador Rubens Barbosa. O impacto de novos conflitos comerciais pode ser pequeno, e outros mercados também buscarão ocupar qualquer lacuna.
A ameaça de uma espiral protecionista, com tarifas e políticas industriais voltadas para dentro, é real. Se o mundo entrar nesse ciclo, as relações comerciais poderão ser redefinidas de formas que trarão mais desafios do que vantagens para todos, incluindo o Brasil. “Podemos perder mercados em outros lugares, porque o comércio internacional é feito de vasos comunicantes. Se os Estados Unidos não venderem para a China, vão continuar vendendo para outros mercados”, destacou Marcos Jank. Nosso papel de principal fornecedor de produtos como soja, milho e carnes à China, mencionado por ele, pode ser reforçado momentaneamente, mas sempre à custa de complexidades geopolíticas.
O cenário internacional também pode se tornar mais polarizado. O chamado “friendshoring” e as novas divisões baseadas em afinidades políticas e valores desafiam nossa capacidade de manter relações equilibradas com diferentes blocos. Precisamos encontrar um ponto de prudência entre nossos principais parceiros comerciais, seja a China, seja os Estados Unidos ou a Europa.
Além disso, Trump traz consigo uma posição cética em relação às mudanças climáticas, o que pode enfraquecer a agenda de transição energética e de biocombustíveis, na qual o Brasil poderia ter mais protagonismo. O desinteresse em acordos ambientais globais, como a COP30, representa algo a ficarmos de olho.
Ainda assim, sinto-me esperançoso. Mudanças estão por vir, e acredito que os Estados Unidos buscarão retomar seu papel como “poder moderador” na ordem mundial. Será um caminho repleto de desafios, especialmente na contenção da influência crescente da China e da Rússia. Veremos como essa nova dinâmica se desenrolará, na expectativa de que traga equilíbrio e novas oportunidades para o mundo.
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