
Os textos que a liturgia do trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum nos convida a escutar contêm um veemente apelo à vigilância. Os textos recordam-nos que a segunda vinda de Jesus está no horizonte final da história humana. De olhar fixo nesse horizonte, caminhamos pela vida atentos ao Senhor que vem, com o coração sempre preparado para O acolher.
VaticanNews - Josenildo *Melo
Na primeira leitura, um “sábio” de Israel apresenta-nos a “sabedoria”, dom gratuito e incondicional de Deus oferecido aos homens para os ajudar a encontrar os caminhos que conduzem à vida verdadeira. A iniciativa de Deus resulta do seu amor infinito, da sua eterna preocupação com o bem e a felicidade dos seus queridos filhos. Ao ser humano resta estar atento, vigilante e disponível para acolher, a cada instante, a vida e a salvação que Deus lhe oferece.
No Evangelho, Jesus, poucas horas antes de morrer na cruz, pede aos seus discípulos que permaneçam atentos e vigilantes, comprometidos a cada instante com os valores do Reino de Deus. Viver distraído, não definir corretamente as prioridades, correr atrás de valores efémeros, atuar de maneira irresponsável ou negligente, instalar-se no imobilismo, poderá significar passar ao lado de algo imperdível, construir a vida sobre a areia, falhar completamente o sentido da existência.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo garante aos cristãos de Tessalónica que Jesus virá de novo para concluir a história humana e para inaugurar a realidade do mundo definitivo. Os tessalonicenses podem estar tranquilos e viver confiantes: todo aquele que tiver aderido a Jesus e se tiver identificado com Ele irá ao seu encontro e permanecerá com Ele para sempre.No discurso dos sábios, a sabedoria era frequentemente personificada na figura de uma mulher muito bela, que valia a pena procurar e conhecer.
É, provavelmente, essa a imagem que está subjacente a esta narrativa.A sabedoria, “luminosa” e “incorruptível”, mantém para sempre a sua beleza impressionante. Facilmente atrai o olhar e prende o coração de todos aqueles que a descobrem (cf. Sb 6,12). Esses passam a amá-la e a procurá--la com afã. Sentem que não podem passar sem ela. A esses, ela não se esconde nem se esquiva.
Não será necessário correr atrás dela com fadiga, trilhando caminhos difíceis ou procurando-a em lugares recônditos e sombrios: ela está bem perto deles, encontra-se com eles quando menos esperam (“hão de encontrá-la sentada à sua porta” – Sb 6,14)*.Aqueles que não podem esquecê-la e que não conseguem dormir porque estão sempre a pensar nela (cf. Sb 6,15)* não devem inquietar-se nem sentir-se angustiados: ela irá à procura deles, aparecer-lhes-á nos caminhos que eles percorrem, estará com eles até na intimidade dos seus pensamentos (cf. Sb 6,16)*.
Falar-lhes-á através da natureza, da beleza e da ordem do mundo, dos acontecimentos da vida e da história, dos factos corriqueiros da existência… Os que amam a sabedoria e a desejam não serão defraudados. Ela oferecer-lhes-á a cada passo a possibilidade de se encontrarem com a vida e a felicidade por que anseiam.Como não ver neste “movimento” da sabedoria, que desce ao encontro dos que a procuram, a ação da graça de Deus, que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro e de nos oferecer o seu amor?
Como não ver nesta sabedoria – que se faz encontrar por aqueles que a amam – o movimento do Filho de Deus, que aceitou descer até nós, despojar-se das suas prerrogativas divinas para “vestir” a nossa condição humana, partilhar as nossas dores e aflições, percorrer conosco os caminhos da história e da vida a fim de nos oferecer a salvação de Deus?
Reflexão da Palavra. O texto da primeira leitura é tirado da segunda parte do livro da Sabedoria (6,1–9,18), onde o autor, um anónimo da primeira metade do século I a.C. que vive no ambiente cultural da antiga Grécia, provavelmente em Alexandria, escreve para os judeus incentivando-os a permanecerem fiéis ao Deus de seus pais e a não caírem na tentação da idolatria. O autor faz, nesta segunda parte, o elogio da Sabedoria e revela como ela se pode adquirir.
A Sabedoria, que por vezes se identifica com o próprio Deus e aqui se identifica com uma forma de viver, deve ser procurada pelo homem se quiser ser justo; não a procurar significa escolher ser ímpio. O texto deixa clara a possibilidade de encontrar a Sabedoria, porque ela própria se deixa encontrar e sai ao encontro de quem a procura. Para a encontrar, é necessário amá-la, procurá-la, desejá-la, buscá-la desde a aurora, não se cansar, meditar sobre ela e consagrar-lhe vigílias.
Tirado da segunda parte da carta de Paulo aos tessalonicenses, o texto da segunda leitura aponta para a realidade presente na perspetiva da vinda futura do Senhor. Paulo pede e exorta, no início do capítulo 4 da carta, para que progridam sempre mais na vontade de “caminhar e agradar a Deus”. Esta resposta há de verificar-se em todos os aspetos da vida cristã: no cumprimento dos preceitos, na santificação, no amor fraterno, no viver em paz, no trabalho e no testemunho perante os de fora da comunidade, porque a vinda do Senhor está próxima.
No Evangelho, depois das parábolas que convidam à vigilância porque está iminente a chegada do Reino, Mateus apresenta, no início do capítulo 25, esta parábola sobre o Reino dos Céus. Dá-se uma mudança na perspetiva do evangelista, pois o Reino já não está iminente como em parábolas anteriores. Agora há um tempo de espera, uma demora que torna incerta a hora em que o esposo vai chegar (“não sabeis o dia nem a hora”).
Perante esta situação, já não é importante o dia e a hora, mas a atitude de cada um — prudentes ou insensatos — durante o tempo de espera. Ou seja, Mateus propõe agora uma espera ativa e disponível para aguardar a chegada do esposo, e não uma espera passiva.
A parábola apresenta estas duas atitudes. Cinco virgens são prudentes, quer dizer, preparam-se no tempo de espera para acompanhar o esposo quando ele chegar; as outras cinco são insensatas, julgam que o esposo não demora e ficam passivas, não se preparam para o acompanhar quando ele chegar e, na hora do encontro, não têm azeite.
Esta insensatez traz consigo um atraso fatal que impede a entrada no banquete. Encontrando a porta fechada, já não adianta suplicar “Senhor, Senhor”, porque “nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).
Claramente, as virgens insensatas não fizeram a vontade de Deus. O tema da procura e do encontro, que atravessa toda a liturgia da palavra deste domingo, tem no Evangelho um ponto de convergência. O texto, situado na parte final do Evangelho, aponta para uma dimensão escatológica, para o dia do encontro com o esposo. Dia e hora que ninguém conhece.
Josenildo Nascimento Melo é *Vaticanista - Jornalista especializado em Igreja Católica/Santa Sé/Vaticano
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