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De imigrantes a representantes: quem são os sete brasileiros eleitos para os parlamentos estaduais dos EUA

De Duque de Caxias a Timbaúba, de Ipatinga a Sobrália: histórias de imigração, trabalho, participação comunitária e ascensão política marcam a trajetória dos sete brasileiros eleitos nas eleições americanas de 3 de novembro de 2026

05/11/2026 às 10h40 Atualizada em 05/11/2026 às 10h54
Por: Douglas Ferreira
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O time de sete brasileiros que saiu vencedor das Midterms americanas - Foto: Reprodução
O time de sete brasileiros que saiu vencedor das Midterms americanas - Foto: Reprodução

Um dado chama atenção no resultado das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as chamadas Midterms: sete brasileiros, todos filiados ao Partido Democrata, conquistaram mandatos legislativos em quatro estados americanos.

São cinco reeleições e duas estreias. Massachusetts concentra quatro representantes; Connecticut, Nevada e Flórida elegeram um brasileiro cada.

As histórias têm um ponto em comum: a imigração. Alguns chegaram ainda crianças, outros adolescentes. Muitos enfrentaram dificuldades com o idioma, barreiras econômicas e problemas de regularização migratória. Anos depois, passaram a disputar eleições, construir bases eleitorais e representar comunidades nas quais os brasileiros têm presença expressiva.

É importante esclarecer que eles foram eleitos para legislativos estaduais, não para o Congresso federal americano. E suas trajetórias mostram diferentes caminhos de entrada na política: conselhos municipais, movimentos comunitários, assessoria parlamentar, serviços sociais e atuação profissional.

Os sete brasileiros eleitos: origem, imigração e trajetória política

Levantamento com informações publicadas em 4 e 5 de novembro de 2026.

Felipe Sousa - Foto: Reprodução

1. Felipe Sousa — Lazaballet/Flórida

Primeiro mandato
  • Origem: Duque de Caxias (RJ).

  • Chegada aos EUA: 2001, aos 14 anos. Está no país há aproximadamente 25 anos.

  • História: Filho de mãe solo, empregada doméstica de origem cearense. Foi levado aos Estados Unidos pela irmã mais velha, que já vivia na Flórida.

  • Trajetória: Viveu cerca de 15 anos sem documentação migratória regular. Aos 26 anos, conseguiu proteção e autorização de trabalho pelo programa DACA. Obteve o green card em 2020 e a cidadania americana em 2021.

  • Como chegou à política: Trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer, e participou de organizações de defesa dos imigrantes e da comunidade LGBTQIA+.

  • Resultado: Conquistou aproximadamente 63% dos votos no Distrito 42, na região de Orlando. Tornou-se o primeiro brasileiro eleito para o Legislativo estadual da Flórida e o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar uma cadeira na Assembleia estadual.

Priscila Sousa - Foto: Reprodução
2. Priscila Sousa — Massachusetts
Reeleita
  • Origem: Ipatinga (MG).

  • Chegada aos EUA: Aos 7 anos. Aproximadamente 31 anos de residência.

  • História: Cresceu em Framingham, onde estudou e aprendeu inglês. Conquistou o green card em 2004, aos 16 anos, e posteriormente a cidadania americana.

  • Formação: Ciência Política, Relações Internacionais e Inglês pela Simmons University.

  • Como chegou à política: Iniciou sua trajetória na vida pública local, participando do Conselho Escolar de Framingham. Chegou à presidência do colegiado e tornou-se a primeira imigrante a ocupar a presidência da Câmara Municipal da cidade.

  • Resultado: Eleita pela primeira vez em 2022, representa o 6º Distrito de Middlesex desde janeiro de 2023. Agora conquistou mais dois anos de mandato.

Rita Mendes - Foto: Reprodução

3. Rita Mendes — Massachusetts

Reeleita
  • Origem: Conselheiro Pena (MG).

  • Chegada aos EUA: Em 2002, aos 12 anos. Cerca de 24 anos no país.

  • História: Mudou-se com os pais para Brockton sem falar inglês. Antes de ingressar na política, trabalhou como faxineira e garçonete.

  • Formação: Direito. Também atua como advogada e corretora de imóveis.

  • Como chegou à política: Em 2019, tornou-se a primeira brasileira eleita para o Conselho Municipal de Brockton. A experiência na representação comunitária abriu caminho para a disputa estadual.

  • Resultado: Eleita deputada estadual em 2022, assumiu em janeiro de 2023 e agora garantiu novo mandato.

Lorena Betts - Foto: Reprodução

4. Lorena Betts — Massachusetts

Primeiro mandato
  • Origem: Mato Grosso, identificada em outras reportagens como natural de Comodoro.

  • Chegada aos EUA: 2011. Aproximadamente 15 anos no país.

  • História: Trabalhava como enfermeira no Brasil. Mudou-se por meio de um programa de intercâmbio para trabalhar como babá.

  • Trajetória: Nos Estados Unidos, estudou Ciências Políticas, envolveu-se em iniciativas comunitárias e passou a atuar em questões relacionadas à imigração. Trabalhou como intérprete no Tribunal de Imigração de Boston e também foi assessora legislativa de Danillo Sena.

  • Como chegou à política: Organizou sabatinas e debates com juízes federais de imigração para orientar brasileiros e latinos sobre seus direitos. A atuação comunitária ajudou a construir sua presença pública.

  • Resultado: Conquistou pela primeira vez uma cadeira legislativa, pelo 16º Distrito de Middlesex. É casada e mãe de três filhos.

Danillo Sena - Foto: Reprodução

5. Danillo Sena — Massachusetts

Reeleito
  • Origem: Timbaúba, Zona da Mata Norte de Pernambuco.

  • Chegada aos EUA: 2001, aos 14 anos. Aproximadamente 25 anos no país.

  • História: Mudou-se para Acton para viver com a mãe. Trabalhou em dois ou três empregos simultaneamente enquanto estudava.

  • Formação: Passou pelo Middlesex Community College e pela Universidade de Massachusetts Amherst.

  • Como chegou à política: Começou como estagiário no gabinete do senador estadual Jamie Eldridge, em 2013. No ano seguinte, passou a integrar a equipe em tempo integral, tornando-se diretor distrital e atuando em pautas de transporte, imigração e serviços sociais.

  • Resultado: Foi eleito pela primeira vez em 2020, após a saída da deputada Jen Benson, em uma eleição especial. É apontado como o primeiro imigrante brasileiro eleito para a Assembleia Legislativa de Massachusetts. Agora renovou o mandato pelo 37º Distrito de Middlesex.

Farley Santos - Foto: Reprodução

6. Farley Santos — Connecticut

Reeleito
  • Origem: Sobrália (MG).

  • Chegada aos EUA: Aos 7 anos. O ano exato da imigração não foi informado nas reportagens consultadas.

  • História: Cresceu em Danbury, onde estudou em escolas públicas e concluiu o ensino médio técnico. Viveu parte da infância como imigrante sem documentação regular.

  • Formação e carreira: Graduado em Administração, construiu carreira no setor financeiro, chegando à vice-presidência de desenvolvimento comunitário do Savings Bank of Danbury.

  • Como chegou à política: Foi eleito para o Conselho Municipal de Danbury em 2019, representando o 4º Ward. Também participou do Conselho de Educação e de organizações sociais voltadas à juventude.

  • Resultado: Conquistou a cadeira do 109º Distrito em 2023 e agora garantiu a reeleição. É casado e pai de uma menina.

Elaine Marzola - Foto: Reprodução

7. Elaine Marzola — Nevada

Reeleita
  • Origem: Rio de Janeiro (RJ).

  • Chegada aos EUA: 1984, ainda criança. Aproximadamente 42 anos no país.

  • História: Mudou-se com os pais para Las Vegas. É mãe e criou o filho como mãe solo, conciliando trabalho e formação acadêmica.

  • Formação: Bacharel em Estudos Femininos pela Universidade de Nevada, em Las Vegas, e graduada em Direito pela Thomas M. Cooley Law School.

  • Como chegou à política: Começou sua trajetória profissional trabalhando no SafeNest, abrigo de atendimento a vítimas de violência doméstica. Depois, atuou como advogada e escriturária judicial.

  • Resultado: Representa o 21º Distrito desde 2021. Foi reeleita pela terceira vez e ocupa a função de Speaker Pro Tempore, além de presidir a bancada democrata na Assembleia de Nevada.

     
    Elaine Marzola for Assembly 21+3

     

Quadro comparativo: de onde vieram e há quanto tempo vivem nos EUA

Nome

Origem brasileira

Tempo nos EUA em 2026

Felipe Sousa-Lazaballet

Duque de Caxias (RJ)

25 anos

Priscila Sousa

Ipatinga (MG)

31 anos

Rita Mendes

Conselheiro Pena (MG)

24 anos

Lorena Betts

Mato Grosso

15 anos

Danillo Sena

Timbaúba (PE)

25 anos

Farley Santos

Sobrália (MG)

Não informado

Elaine Marzola

Rio de Janeiro (RJ)

42 anos

Os períodos são aproximados, calculados a partir dos anos de chegada divulgados. No caso de Farley, as fontes informam apenas que ele chegou aos sete anos de idade.

Como conseguiram chegar ao Legislativo americano?

Há alguns elementos importantes para compreender essas vitórias.

1. Inserção nas comunidades locais. A maioria construiu sua trajetória política dentro das próprias cidades onde vive. Brockton, Framingham, Acton, Danbury e Las Vegas são exemplos de localidades onde a participação comunitária ajudou a formar suas bases eleitorais.

2. Experiência anterior na administração pública. Priscila, Rita e Farley passaram por conselhos municipais ou colegiados locais. Danillo trabalhou durante anos no Legislativo estadual antes de disputar uma eleição.

3. Representação de comunidades imigrantes. A experiência migratória, o conhecimento das dificuldades de regularização, o acesso à educação e os direitos dos trabalhadores aparecem como elementos importantes das trajetórias de vários eleitos.

4. Construção de redes políticas. Assessoria parlamentar, organizações comunitárias, movimentos sociais e atuação em serviços públicos proporcionaram experiência, visibilidade e relacionamento com eleitores.

5. Voto distrital. Diferentemente do modelo brasileiro de eleição proporcional para deputados, os representantes estaduais americanos disputam vagas em distritos eleitorais específicos. A capacidade de construir uma base local é, portanto, fundamental.

O que esse resultado representa?

A eleição dos sete brasileiros é um acontecimento relevante para a comunidade brasileira nos Estados Unidos. Não significa que tenham conquistado mandatos no Congresso americano, mas que passaram a integrar estruturas legislativas estaduais, onde são discutidas políticas de educação, segurança, saúde, imigração, tributação e desenvolvimento econômico.

Também há uma característica política comum: os sete são democratas. Cinco conquistaram a reeleição e dois chegaram pela primeira vez ao Legislativo.

Outro aspecto merece atenção: a presença brasileira não se limita mais à atividade empresarial, ao comércio, aos serviços e à organização de associações de imigrantes. Há brasileiros participando diretamente das instituições políticas americanas, disputando votos e ocupando posições de liderança.

De Timbaúba, em Pernambuco, a Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, essas sete histórias mostram uma geração de brasileiros que saiu do país, construiu a vida nos Estados Unidos e chegou à representação política.

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