
Não há dúvidas de que o ambiente acadêmico é e deve ser plural, acolhendo a diversidade em todas as suas formas. No entanto, quando essa pluralidade atravessa fronteiras e entra no campo da polêmica, a questão que surge é: o que se ganha com isso? Essa é a reflexão que o Brasil tem feito após o vídeo da historiadora Tertuliana Lustosa viralizar nas redes sociais. Durante uma palestra na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Lustosa subiu em uma cadeira, levantou o vestido e expôs suas partes íntimas em uma performance descrita como "erótica". Em meio à apresentação, que fazia parte do I Encontro de Gênero da instituição, ela declarou: “Educando com o c*”.
A performance, que poderia ser vista como uma provocação artística, levantou uma série de perguntas. Até onde vai a liberdade de expressão acadêmica? A pluralidade, um dos pilares das universidades, precisa de tais atos para avançar debates ou ela esbarra no bom senso? A fala de Lustosa, ainda que carregada de ironia e desafio, deixou o ambiente acadêmico perplexo, ao passo que as redes sociais rapidamente dividiram opiniões. Alguns apoiaram a ousadia da historiadora; outros, contudo, enxergaram um desrespeito ao espaço que deveria ser destinado à construção do conhecimento.
A UFMA, em resposta à repercussão, afirmou que "tomará as providências cabíveis" e reforçou seu compromisso com um ambiente inclusivo. No entanto, o questionamento permanece: é necessário trazer performances que flertam com a vulgaridade para discussões acadêmicas, mesmo em um encontro sobre gênero e suas interseccionalidades? Tertuliana Lustosa, com 26,9 mil seguidores no Instagram e conhecida por sua música provocativa "Murro na costela do viado", defende que a universidade é, sim, um lugar para o "proibidão". Em sua rede social, ela convidou o público a conhecer sua pesquisa, intitulada "Educando com o C*".
É fato que a academia tem um papel crucial em desafiar normas e questionar conceitos estabelecidos. No entanto, há uma linha tênue entre a provocação construtiva e a criação de polêmicas vazias. A liberdade de expressão é essencial, mas, quando usada sem critério, pode fragilizar o próprio propósito de ampliação do conhecimento. Se o objetivo é tensionar debates, a polêmica gerada por Lustosa levanta a dúvida: estamos realmente avançando ou apenas alimentando o espetáculo?
A história recente nos lembra que este tipo de situação não é isolada. Apenas algumas semanas atrás, o governo Lula foi criticado por uma dança erótica no Ministério da Saúde. Se por um lado vivemos em tempos de ampliação dos debates sobre gênero, sexualidade e liberdade, por outro, é preciso considerar se esse tipo de performance é a maneira mais eficaz de abrir novas frentes de diálogo ou se apenas cria mais ruído em um ambiente que deveria ser focado em desenvolvimento intelectual.
Diante disso, a academia – embora plural e diversa – precisa reavaliar como conduz suas fronteiras de expressão. Afinal, provocação sem substância pode não contribuir para o avanço que tanto se busca.
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