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Economia MÃO DE OBRA ESCRAVA

Lula acuado: tarifaço, trabalho escravo e uma crise sem Bolsonaro para culpar

Investigação americana sobre produtos ligados à mão de obra forçada coloca o governo Lula em posição delicada: além das suspeitas comerciais, desta vez o Planalto terá de enfrentar sozinho o desgaste internacional

03/06/2026 às 04h00 Atualizada em 03/06/2026 às 10h26
Por: Douglas Ferreira
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Presidente Lula da Silva - Foto: Reprodução
Presidente Lula da Silva - Foto: Reprodução

O Brasil entra na mira e o governo teme novo tarifaço americano

Pelo visto, definitivamente o mar não está para peixe quando o assunto é Brasil e relações comerciais com os Estados Unidos. Como se já não bastasse o tarifaço de 25% sobre diversos produtos brasileiros, agora o governo Lula começa a temer uma nova sobretaxa que pode variar entre 10% e 15%.

E o motivo é daqueles que causam arrepios em qualquer governo progressista latino-americano: trabalho escravo.

Sim. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos abriu investigação contra o Brasil e outros países sob suspeita de falhas no combate à entrada de produtos fabricados com mão de obra forçada. Traduzindo para o português claro: os americanos desconfiam que o Brasil fecha os olhos para cadeias produtivas contaminadas por exploração humana.

E convenhamos… o temor do governo brasileiro não nasce do nada.

Recentemente, denúncias envolvendo condições degradantes de trabalho em montadoras chinesas instaladas em território nacional já haviam acendido o alerta. Ou seja, o problema não está apenas “lá fora”. Está aqui dentro também.

Como diz o velho ditado popular: “quem não deve, não teme”. Mas pelo jeito, “Bittencourt” tem medo.

E não é para menos.

Os Estados Unidos tratam acusações de trabalho escravo com enorme rigor comercial e diplomático. O tema virou questão estratégica. Empresas americanas pressionam por concorrência “justa”, alegando que produtos feitos com exploração humana entram no mercado com vantagens artificiais de custo.

E aí entra um detalhe extremamente desconfortável para a esquerda brasileira.

Governos progressistas costumam discursar muito sobre direitos humanos, dignidade e proteção do trabalhador. Mas, curiosamente, convivem com certas contradições ideológicas bastante peculiares quando o assunto envolve regimes aliados.

Quem não lembra do programa Mais Médicos?

Os profissionais cubanos eram contratados formalmente por salários superiores a R$ 10 mil. Porém, grande parte do dinheiro não ficava com eles. O grosso dos recursos seguia diretamente para os cofres da ditadura cubana, enquanto os médicos recebiam apenas uma fração do valor anunciado.

Na prática, muitos críticos classificavam aquilo como uma forma moderna de servidão estatal institucionalizada.

Mas, naquele período, boa parte da esquerda brasileira preferia chamar isso de “solidariedade internacional”.

Agora o cenário mudou.

O governo Lula tenta convencer Washington de que o Brasil possui um amplo arcabouço jurídico de combate ao trabalho análogo à escravidão. E, de fato, o país possui legislação robusta, operações de fiscalização e instrumentos reconhecidos internacionalmente.

O problema é que discurso diplomático nem sempre vence percepção política.

E percepção, hoje, pesa muito.

Principalmente num momento em que os Estados Unidos endurecem sua política comercial global e usam sanções econômicas como ferramenta de pressão geopolítica.

Mas há um agravante político ainda mais indigesto para o Palácio do Planalto: desta vez, o governo se vê duplamente acuado.

Primeiro, porque existe a sensação de que há, sim, “culpa no cartório”. Afinal, as suspeitas envolvem justamente relações comerciais e cadeias produtivas de países parceiros do Brasil, muitos deles tratados historicamente com enorme complacência ideológica por setores da esquerda latino-americana.

Segundo, porque desta vez não haverá como terceirizar a responsabilidade ou transformar Bolsonaro no vilão da história.

Não.

Diferentemente de outros episódios políticos e econômicos recentes, o governo Lula terá de engolir seco — e sozinho — o desgaste internacional provocado pelas suspeitas de falta de rigor no combate ao trabalho forçado em países com relações comerciais próximas ao Brasil.

O problema interno das montadoras, das fiscalizações e das cadeias produtivas nacionais até poderá ser tratado depois, administrativamente. Mas a crise diplomática já bateu à porta agora. E bateu forte.

Nos bastidores, o temor é evidente. Porque uma nova sobretaxa americana não atingiria apenas números frios da balança comercial. Ela atingiria diretamente a imagem de credibilidade econômica do Brasil no exterior.

E convenhamos outra vez: o governo já está administrando desgaste demais ao mesmo tempo.

- Tem inflação pressionando.
- Tem insegurança pública dominando o debate.
- Tem tensão diplomática crescente.
- E agora surge mais essa bomba envolvendo suspeitas de complacência com produtos ligados a trabalho forçado.

O Planalto tenta apagar incêndio com notas diplomáticas e pedidos de “diálogo construtivo”. Mas o problema é que Washington parece cada vez menos interessado em diplomacia poética e cada vez mais inclinado à política do porrete tarifário.

No fim das contas, o Brasil vai descobrindo da pior maneira possível que, no comércio internacional, discurso ideológico raramente pesa mais que interesse econômico.

E quando os americanos resolvem endurecer, até os parceiros começam a suar frio.

O mar realmente não está para peixe. E o governo já percebeu isso.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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