
Pelo visto, definitivamente o mar não está para peixe quando o assunto é Brasil e relações comerciais com os Estados Unidos. Como se já não bastasse o tarifaço de 25% sobre diversos produtos brasileiros, agora o governo Lula começa a temer uma nova sobretaxa que pode variar entre 10% e 15%.
E o motivo é daqueles que causam arrepios em qualquer governo progressista latino-americano: trabalho escravo.
Sim. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos abriu investigação contra o Brasil e outros países sob suspeita de falhas no combate à entrada de produtos fabricados com mão de obra forçada. Traduzindo para o português claro: os americanos desconfiam que o Brasil fecha os olhos para cadeias produtivas contaminadas por exploração humana.
E convenhamos… o temor do governo brasileiro não nasce do nada.
Recentemente, denúncias envolvendo condições degradantes de trabalho em montadoras chinesas instaladas em território nacional já haviam acendido o alerta. Ou seja, o problema não está apenas “lá fora”. Está aqui dentro também.
Como diz o velho ditado popular: “quem não deve, não teme”. Mas pelo jeito, “Bittencourt” tem medo.
E não é para menos.
Os Estados Unidos tratam acusações de trabalho escravo com enorme rigor comercial e diplomático. O tema virou questão estratégica. Empresas americanas pressionam por concorrência “justa”, alegando que produtos feitos com exploração humana entram no mercado com vantagens artificiais de custo.
E aí entra um detalhe extremamente desconfortável para a esquerda brasileira.
Governos progressistas costumam discursar muito sobre direitos humanos, dignidade e proteção do trabalhador. Mas, curiosamente, convivem com certas contradições ideológicas bastante peculiares quando o assunto envolve regimes aliados.
Quem não lembra do programa Mais Médicos?
Os profissionais cubanos eram contratados formalmente por salários superiores a R$ 10 mil. Porém, grande parte do dinheiro não ficava com eles. O grosso dos recursos seguia diretamente para os cofres da ditadura cubana, enquanto os médicos recebiam apenas uma fração do valor anunciado.
Na prática, muitos críticos classificavam aquilo como uma forma moderna de servidão estatal institucionalizada.
Mas, naquele período, boa parte da esquerda brasileira preferia chamar isso de “solidariedade internacional”.
Agora o cenário mudou.
O governo Lula tenta convencer Washington de que o Brasil possui um amplo arcabouço jurídico de combate ao trabalho análogo à escravidão. E, de fato, o país possui legislação robusta, operações de fiscalização e instrumentos reconhecidos internacionalmente.
O problema é que discurso diplomático nem sempre vence percepção política.
E percepção, hoje, pesa muito.
Principalmente num momento em que os Estados Unidos endurecem sua política comercial global e usam sanções econômicas como ferramenta de pressão geopolítica.
Mas há um agravante político ainda mais indigesto para o Palácio do Planalto: desta vez, o governo se vê duplamente acuado.
Primeiro, porque existe a sensação de que há, sim, “culpa no cartório”. Afinal, as suspeitas envolvem justamente relações comerciais e cadeias produtivas de países parceiros do Brasil, muitos deles tratados historicamente com enorme complacência ideológica por setores da esquerda latino-americana.
Segundo, porque desta vez não haverá como terceirizar a responsabilidade ou transformar Bolsonaro no vilão da história.
Não.
Diferentemente de outros episódios políticos e econômicos recentes, o governo Lula terá de engolir seco — e sozinho — o desgaste internacional provocado pelas suspeitas de falta de rigor no combate ao trabalho forçado em países com relações comerciais próximas ao Brasil.
O problema interno das montadoras, das fiscalizações e das cadeias produtivas nacionais até poderá ser tratado depois, administrativamente. Mas a crise diplomática já bateu à porta agora. E bateu forte.
Nos bastidores, o temor é evidente. Porque uma nova sobretaxa americana não atingiria apenas números frios da balança comercial. Ela atingiria diretamente a imagem de credibilidade econômica do Brasil no exterior.
E convenhamos outra vez: o governo já está administrando desgaste demais ao mesmo tempo.
- Tem inflação pressionando.
- Tem insegurança pública dominando o debate.
- Tem tensão diplomática crescente.
- E agora surge mais essa bomba envolvendo suspeitas de complacência com produtos ligados a trabalho forçado.
O Planalto tenta apagar incêndio com notas diplomáticas e pedidos de “diálogo construtivo”. Mas o problema é que Washington parece cada vez menos interessado em diplomacia poética e cada vez mais inclinado à política do porrete tarifário.
No fim das contas, o Brasil vai descobrindo da pior maneira possível que, no comércio internacional, discurso ideológico raramente pesa mais que interesse econômico.
E quando os americanos resolvem endurecer, até os parceiros começam a suar frio.
O mar realmente não está para peixe. E o governo já percebeu isso.
ESCOLA DO RECIFE Tobias Barreto de Menezes: o jurista que revolucionou o pensamento jurídico brasileiro
NAS MÃOS DOS COIOTES Fugindo do “inferno”: por que milhares de cubanos agora escolhem o Brasil para recomeçar a vida?
ATENAS ALAGOANA Penedo: a Atenas do Nordeste que encantou Dom Pedro II e preserva quase cinco séculos de história às margens do Velho Chico
REJEIÇÃO INTERNA Vinícius Dias expõe resistência no PT e revela por que Iasmin recuou da suplência
POLÍCIA FEDERAL Quanto mais mexe, mais fede: cerco da PF aperta e Jaques Wagner vira problema para o Planalto
ACESSO A PF E PGR Vorcaro não queria influência. Queria acesso ao topo da República
JUSTIÇA DO TRABALHO Maria Suzete Monte Diógenes: uma vida dedicada à Justiça, ao conhecimento e ao serviço público
PROPINODUTO MASTER A queda da engolideira: quando o Banco Master deixou de ser banco para virar máquina de poder
TURISMO AMERICANO Ranking revela as melhores cidades dos Estados Unidos em 2026: por onde começar a realizar o sonho americano?
Mín. 23° Máx. 32°