
Em tempos de internet, redes sociais e, sobretudo, de uma mídia cada vez mais alinhada ao poder político, virou moda surgir especialista para tudo. Basta o tema entrar na pauta do dia que aparecem comentaristas “instantâneos”, analistas improvisados e cientistas políticos retirados do fundo do arquivo para defender determinada narrativa. E no caso da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, o espetáculo atingiu níveis quase caricatos.
Parte da velha mídia mergulhou num esforço desesperado para transformar uma discussão sobre crime organizado internacional em debate sobre soberania nacional. O problema é que muitos dos chamados especialistas parecem conhecer mais de militância ideológica do que de segurança pública, narcotráfico ou crime transnacional.
Houve comentarista que misturou terrorismo, geopolítica, bolsonarismo, economia e até “ataque à democracia” numa salada retórica difícil de sustentar tecnicamente. Uma analista chegou ao ponto de afirmar que a classificação seria “mais um golpe da família Bolsonaro contra a economia brasileira”. A pergunta inevitável é: qual economia? A formal ou a economia paralela do narcotráfico, da lavagem de dinheiro, do contrabando e da infiltração criminosa nas estruturas do Estado?
Outros fizeram verdadeiros malabarismos semânticos para justificar a narrativa governista. Diziam e desdiziam em minutos. Falavam em risco de intervenção americana, comparavam o Brasil à Venezuela e insinuavam cenários quase cinematográficos. Ora, desde quando o Brasil é oficialmente um narco-Estado? Desde quando Lula é tratado como ditador internacionalmente? E mais curioso ainda: ao tentar sustentar a tese da soberania ameaçada, alguns comentaristas acabaram associando indiretamente o Brasil ao mesmo ambiente político e institucional venezuelano. Um tiro retórico no próprio pé.
É justamente aí que surge o ponto central da discussão. O debate nunca foi soberania. O debate é segurança pública, crime transnacional e narcoterrorismo. Facções como PCC e CV já ultrapassaram há muito tempo a lógica do “crime comum”. Elas dominam territórios, expulsam moradores, controlam serviços, financiam campanhas políticas, infiltram-se em estruturas públicas, executam agentes do Estado, aterrorizam comunidades e operam internacionalmente. Isso é apenas criminalidade comum?
Enquanto parte da mídia preferia entrevistar comentaristas de estúdio, o Estadão buscou alguém com autoridade concreta sobre o tema. Não um analista de sofá. Não um comentarista de ocasião. Mas um magistrado que enfrentou diretamente o crime organizado por décadas.
O ex-juiz federal Odilon de Oliveira, responsável pela condenação de Fernandinho Beira-Mar e pela prisão de centenas de traficantes e contrabandistas na fronteira brasileira, foi direto ao ponto: PCC e CV possuem características claras de organizações terroristas.
E sua fala carrega peso técnico, jurídico e operacional.
Odilon lembra que cada país possui soberania para definir o que considera terrorismo. Ou seja, os Estados Unidos não obrigaram o Brasil a fazer o mesmo enquadramento. Apenas aplicaram sua própria legislação dentro de sua própria competência estatal. Isso é exercício de soberania americana, não violação da soberania brasileira.
Mais contundente ainda foi sua observação ao afirmar que “estranho é o Brasil se colocar ao lado dessas facções e implorar para que os EUA não as classifiquem como terroristas”. A frase expõe um desconforto que cresce em parte da sociedade brasileira: por que o governo demonstra tanta resistência a uma medida que endurece o combate internacional ao crime organizado?
Odilon também desmonta outra narrativa recorrente: a de que PCC e CV não praticam terrorismo porque não possuem motivação ideológica clássica. Segundo ele, existe o chamado terrorismo político-administrativo, quando organizações usam violência sistemática para intimidar o Estado e controlar territórios visando vantagem econômica.
E os exemplos citados por ele são difíceis de contestar.
O PCC aterrorizou São Paulo em 2006 com ataques coordenados contra delegacias, fóruns, ônibus, policiais e agentes penitenciários. O Comando Vermelho domina regiões inteiras no Rio de Janeiro, impondo regras próprias, explorando serviços clandestinos e exercendo funções paralelas ao próprio Estado.
Isso sem mencionar sequestros internacionais, atentados, explosões, assassinatos de autoridades e infiltração política. O próprio magistrado relata episódios envolvendo conexões entre PCC, Farc e grupos armados estrangeiros.
A análise do juiz revela algo que parte da mídia parece ignorar deliberadamente: crime organizado moderno não atua mais apenas como quadrilha convencional. Hoje ele possui estrutura financeira internacional, controle territorial, aparato bélico, inteligência, lavagem de dinheiro e capacidade de intimidação coletiva.
No fundo, a reação de setores do governo e da mídia talvez revele mais desconforto político do que preocupação jurídica. Porque reconhecer a gravidade do fenômeno implica admitir que o Estado brasileiro perdeu espaços importantes para o crime organizado nas últimas décadas.
E talvez seja exatamente isso que incomode tanto.
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