
A reação de parte da esquerda brasileira ao encontro entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump revelou muito mais do que simples divergência política. Expôs um fenômeno cada vez mais presente nas democracias modernas: o negacionismo político seletivo.
Primeiro veio a negação do encontro. Lideranças políticas, influenciadores, blogueiros e setores da imprensa alinhados ao governo tentaram desqualificar a informação. Houve quem afirmasse categoricamente que a reunião não existiria. Outros ironizaram o episódio antes mesmo dele acontecer.
Depois vieram as fotos. Confirmada a reunião no Salão Oval da Casa Branca, o discurso mudou. Passou-se então a afirmar que as imagens seriam montagens produzidas por inteligência artificial. Em seguida, quando já não havia como negar o encontro, o deboche migrou para a duração da conversa. O argumento virou: “Lula ficou mais tempo com Trump”.
Mas a questão central jamais foi o tempo da reunião. O fato político relevante é outro: um senador brasileiro, pré-candidato à Presidência da República, foi recebido pelo líder da maior potência econômica e militar do planeta dentro da Casa Branca. Isso, por si só, possui peso diplomático e simbólico.
E aqui entra um fenômeno muito estudado pela psicologia política: o viés de confirmação. Pessoas tendem a aceitar informações que reforçam suas crenças e rejeitar fatos que ameaçam sua visão de mundo. Isso acontece em todos os espectros ideológicos. Quando a realidade entra em choque com convicções previamente estabelecidas, surge aquilo que especialistas chamam de dissonância cognitiva.
O desconforto mental leva muitos indivíduos a:
• negar fatos
• relativizar acontecimentos
• atacar a fonte da informação
• reinterpretar a realidade para proteger suas crenças
Foi exatamente o que ocorreu no episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Trump.
Há também a chamada identidade social. Para muitos militantes, política deixou de ser apenas debate de ideias e passou a funcionar como pertencimento emocional. Nesse ambiente, críticas ao grupo são interpretadas como ataques pessoais. Líderes se tornam símbolos afetivos. E fatos concretos passam a ter menos importância do que a lealdade ideológica.
A polarização agrava ainda mais esse comportamento. Ela cria um ambiente de “nós contra eles”, reduz a complexidade do debate público e gera resistência em admitir qualquer acerto do adversário político.
As redes sociais intensificam esse processo. Algoritmos entregam às pessoas conteúdos semelhantes àquilo em que elas já acreditam. Isso fortalece bolhas ideológicas e reduz drasticamente o contato com opiniões divergentes. O resultado é uma percepção distorcida da realidade.
Importante destacar: esse fenômeno não é exclusivo da esquerda. Estudos em psicologia política mostram que conservadores, progressistas, nacionalistas, religiosos e movimentos identitários podem apresentar negação seletiva da realidade quando suas crenças são ameaçadas. A intensidade varia mais conforme radicalização, ambiente social, consumo de informação e perfil psicológico do que pela posição política em si.
Mas, neste caso específico, a reação de setores da esquerda foi emblemática.
Enquanto Lula busca uma abordagem diplomática que evita classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, Flávio Bolsonaro apresentou uma visão oposta ao governo americano. O senador defendeu endurecimento no combate ao PCC e ao CV e afirmou que classificaria essas facções como organizações terroristas caso chegue ao Planalto.
Independentemente da concordância ou não com essa posição, esse foi o verdadeiro eixo estratégico da reunião. O debate envolveu segurança hemisférica, narcotráfico internacional, inteligência policial e cooperação entre países.
E isso explica a relevância do encontro.
O restante virou disputa narrativa. Primeiro negaram. Depois ridicularizaram. Em seguida relativizaram. E, por fim, tentaram diminuir o impacto político do episódio.
É justamente assim que funciona o negacionismo político moderno. O resto é mimimi, hermenêutica, semiótica e analogia petista.
ESCOLA DO RECIFE Tobias Barreto de Menezes: o jurista que revolucionou o pensamento jurídico brasileiro
NAS MÃOS DOS COIOTES Fugindo do “inferno”: por que milhares de cubanos agora escolhem o Brasil para recomeçar a vida?
ATENAS ALAGOANA Penedo: a Atenas do Nordeste que encantou Dom Pedro II e preserva quase cinco séculos de história às margens do Velho Chico
REJEIÇÃO INTERNA Vinícius Dias expõe resistência no PT e revela por que Iasmin recuou da suplência
POLÍCIA FEDERAL Quanto mais mexe, mais fede: cerco da PF aperta e Jaques Wagner vira problema para o Planalto
ACESSO A PF E PGR Vorcaro não queria influência. Queria acesso ao topo da República
JUSTIÇA DO TRABALHO Maria Suzete Monte Diógenes: uma vida dedicada à Justiça, ao conhecimento e ao serviço público
PROPINODUTO MASTER A queda da engolideira: quando o Banco Master deixou de ser banco para virar máquina de poder
TURISMO AMERICANO Ranking revela as melhores cidades dos Estados Unidos em 2026: por onde começar a realizar o sonho americano?
Mín. 23° Máx. 32°