
Os novos dados do Radar IDHM revelam um Brasil contraditório. De um lado, indicadores oficiais mostram melhora no desenvolvimento humano em praticamente todo o país. Do outro, milhões de brasileiros continuam convivendo com precariedade na saúde, baixa renda, insegurança econômica e serviços públicos insuficientes. A distância entre os números e a vida real permanece enorme.
O levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro, mostra que Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte lideraram o crescimento proporcional do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) entre 2012 e 2024.
O Brasil, inclusive, entrou pela primeira vez no grupo de países de “muito alto desenvolvimento humano”, saindo de 0,744 para 0,805. O dado parece extremamente positivo. Mas a pergunta inevitável continua sendo: o brasileiro comum sente isso na prática?
O crescimento de estados nordestinos revela avanços importantes, especialmente em educação, redução da pobreza extrema e acesso a políticas públicas. Entretanto, o próprio estudo admite que isso ainda não foi suficiente para reduzir as desigualdades históricas entre as regiões brasileiras.
Na prática, Sul e Sudeste continuam concentrando os maiores salários, melhor infraestrutura, maior produtividade econômica, melhores serviços públicos e maior expectativa de vida.
Enquanto isso, boa parte do Nordeste segue dependente do setor público, de programas sociais e de economias menos dinâmicas.
O dado talvez mais simbólico seja este: mesmo sendo um dos estados que mais cresceram proporcionalmente, o Piauí ocupa apenas a 20ª posição nacional em IDHM.
O Piauí apresentou evolução importante no índice, alcançando 0,764 em 2024. O resultado aponta avanços em áreas como escolarização, expectativa de vida e renda média.
Entre os pontos positivos observados nos últimos anos estão a expansão do acesso ao ensino, melhora nos indicadores de alfabetização, aumento da expectativa de vida, redução gradual da pobreza extrema, ampliação de programas de transferência de renda e interiorização de universidades e institutos federais.
O estado também avançou em setores ligados à energia renovável, especialmente na produção de energia solar e eólica, atraindo investimentos relevantes.
Apesar disso, os índices ainda não conseguem esconder problemas estruturais profundos.
O Piauí continua convivendo com baixos salários, forte dependência do funcionalismo público, pouca industrialização, escassez de empregos privados qualificados, êxodo de jovens, deficiência em saneamento básico, infraestrutura precária em muitos municípios e elevada informalidade.
Na prática, melhora-se o indicador, mas nem sempre melhora-se a vida concreta da população na mesma velocidade.
Especialistas lembram que crescimento do IDHM não representa automaticamente prosperidade ampla.
Em muitos casos, os avanços são impulsionados por programas sociais, aumento da escolarização básica, expansão do acesso mínimo a serviços públicos e crescimento urbano.
Embora essas políticas melhorem parte das condições sociais, elas não garantem, por si só, geração sustentável de riqueza.
O grande gargalo continua sendo a economia.
Sem industrialização forte, geração robusta de empregos, aumento de produtividade, renda elevada, segurança econômica e investimentos privados consistentes, o desenvolvimento tende a permanecer limitado e dependente do Estado.
O estudo também expõe um paradoxo nacional. O Brasil melhora nos indicadores sociais enquanto grande parte da população continua demonstrando forte sensação de insegurança econômica e baixa qualidade de vida.
Isso ocorre porque desenvolvimento humano não depende apenas de estatísticas médias. A percepção social também é influenciada pelo custo de vida, violência, desemprego, mobilidade social, acesso real à saúde, qualidade da educação e capacidade de consumo.
E justamente nesses pontos o país ainda enfrenta enormes dificuldades.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou em inclusão social, mas ainda não conseguiu aumentar produtividade de forma consistente, modernizar plenamente sua economia, reduzir burocracia, melhorar significativamente a qualidade do ensino e diminuir desigualdades regionais históricas.
No caso do Piauí, o desafio talvez seja ainda maior: transformar avanços sociais básicos em desenvolvimento econômico real.
Porque, no fim, números positivos ajudam a contar uma história. Mas é o cotidiano das pessoas que revela se o desenvolvimento realmente aconteceu.
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