
Um grande amigo, a quem considero um irmão, me enviou um texto criticando e questionando meu artigo sobre a resposta do ministro Wellington Dias ao apresentador Luciano Huck.
O amigo, a quem me reservo o direito de omitir o nome, disse:
“Douglas, pesquise antes de falar sobre um programa tão importante e necessário como esse, pois, com empregos formais ou abertura de negócios, 2.069.776 pessoas saíram do Bolsa Família entre janeiro e outubro do ano passado”.
E acrescentou:
“1,3 milhão de famílias saíram por causa do aumento dos ganhos totais no domicílio, enquanto quase 727 mil concluíram o período na regra de proteção, mecanismo que permite que o beneficiário continue recebendo metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses, mesmo após superar o limite de R$ 218 mensais per capita”.
E ele está certo, pelo menos em parte. Mas o meu artigo não criticava o programa em si, e sim a forma como ele vem sendo utilizado politicamente. É preciso deixar isso claro.
Primeiro: não sou contra o Bolsa Família e tampouco defendo o fim do programa. Ele foi, e continua sendo, importante para milhões de brasileiros em situação de extrema vulnerabilidade. O problema não é a existência do programa, mas o modelo atual e a narrativa construída em torno dele.
A crítica feita por Luciano Huck - e ignorada por Wellington Dias - toca justamente no ponto central da discussão: o programa, da forma como está estruturado, muitas vezes não promove emancipação econômica; promove dependência.
Programas de transferência de renda existem no mundo inteiro. Quando estive na Alemanha, visitei uma amiga que recebia um benefício semelhante ao Bolsa Família porque teve um filho de um alemão que não assumiu a criança. E veja o detalhe: ela trabalhava no Parlamento Alemão. Recebia cerca de 600 euros do benefício social, além do salário. O auxílio existia para garantir dignidade à criança, sem impedir que a mãe trabalhasse e crescesse profissionalmente.
No Brasil, durante anos, governos de esquerda pagaram benefícios irrisórios, enquanto mantinham o discurso de combate à pobreza. Foi somente no governo anterior - de direita - que o valor foi elevado para R$ 600 e criado até mesmo um 13º do Bolsa Família, medida combatida pela própria esquerda, que deixou o decreto morrer na mesa da Câmara.
Então é justamente aí que mora a crítica. O programa deveria funcionar como uma ponte para que o cidadão saísse da miséria, conquistasse autonomia e deixasse de depender do Estado. Mas, em muitos casos, ele acabou se transformando numa ferramenta permanente de dependência social e eleitoral.
Hoje, são cerca de 50 milhões de brasileiros ligados ao Bolsa Família. Quando alguém comemora que pouco mais de 2 milhões deixaram o programa, estamos falando de algo em torno de 4% do total. Isso está longe de representar uma transformação estrutural da pobreza brasileira.
E há outra contradição histórica que muita gente prefere esquecer: Luiz Inácio Lula da Silva, o PT e boa parte da esquerda criticavam ferozmente o Bolsa Escola, criado no governo Fernando Henrique Cardoso. Diziam que era um programa eleitoreiro. Hoje, os mesmos grupos se apresentam como “pais” do Bolsa Família, quando, na prática, apenas ampliaram um modelo já existente.
Por isso, a frase do ex-presidente americano Ronald Reagan continua atual: o sucesso de um programa social deve ser medido pelo número de pessoas que conseguem sair dele - e não pelo número de pessoas que entram todos os meses.
Infelizmente, o governo Lula transformou um programa que poderia ser uma ferramenta de emancipação em algo próximo de uma senzala ideológica e social.
Basta observar a realidade em muitos lugares do país. Vídeos circulam diariamente nas redes sociais mostrando pessoas debochando de quem trabalha, enquanto exaltam a dependência do auxílio estatal. E isso é grave.
O Bolsa Família, por um lado, ameniza a fome e o sofrimento dos mais pobres. Mas, por outro, também criou distorções perigosas, onde parte da população passou a enxergar o trabalho formal como ameaça ao benefício.
Aqui mesmo estou há semanas tentando encontrar alguém para retirar uma goteira e eliminar uma infestação de cupins. Não encontro. Quem fazia esse tipo de serviço está "encostado" no Bolsa Família e se recusa a trabalhar. Pedreiro virou raridade. Bombeiro hidráulico então, nem se fala.
Essas são distorções reais, concretas, que o governo precisa enfrentar, em vez de simplesmente acusar qualquer crítica de “preconceito contra os pobres”. Essa é uma resposta rasa para um problema profundo.
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