
Não foi uma visita protocolar de corredor. Nem aquele cafezinho institucional de fim de tarde tão comum em Brasília. Também não foram dois encontros rápidos para discutir cenário econômico. Muito menos meia dúzia de reuniões espalhadas ao longo do ano.
Foram mais de 20 visitas de Daniel Vorcaro ao Banco Central do Brasil.
Mais especificamente ao gabinete de Gabriel Galípolo.
E aí entra o detalhe curioso dessa história.
Brasília até pode normalizar muita coisa. Mas mais de 20 encontros entre um banqueiro mergulhado numa crise financeira e o futuro presidente do Banco Central definitivamente chamam atenção. Chamam atenção porque simplesmente não é padrão.
Qual outro banqueiro teve acesso tão frequente assim ao comando do BC no mesmo período?
Qual outro empresário do sistema financeiro bateu tantas vezes na mesma porta?
Difícil lembrar de alguém.
Mas para Galípolo, tudo isso seria absolutamente “comum”. Sim, comum.
A declaração foi dada durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, onde o presidente do Banco Central precisou explicar a relação institucional com Vorcaro em meio à crise do Banco Master.
Segundo Galípolo, reuniões frequentes acontecem naturalmente quando instituições financeiras atravessam momentos delicados.
A explicação até pode soar técnica no papel. O problema é que, em Brasília, quantidade também comunica. E mais de 20 reuniões acabam produzindo um efeito visual parecido com fumaça saindo debaixo da porta. Talvez não prove incêndio, mas certamente faz muita gente perguntar o que está queimando lá dentro.
O clima da audiência esquentou ainda mais durante o embate com o senador Renan Calheiros.
Renan afirmou que Galípolo teria defendido anteriormente a operação de venda do Banco Master ao BRB. Galípolo negou. O senador então disse possuir um áudio comprovando a declaração. O áudio, porém, não apareceu.
Brasília também tem dessas coisas. Áudios misteriosos surgem como trailer de série política. Todo mundo fala deles. Poucos realmente escutam.
Outro ponto que aumentou o desconforto foi a revelação sobre uma reunião no Palácio do Planalto envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva, ministros e Daniel Vorcaro.
Na época, Galípolo ainda nem havia assumido oficialmente a presidência do Banco Central.
Segundo ele, o encontro teve caráter técnico e tratou exclusivamente da crise enfrentada pelo Banco Master.
Galípolo afirmou ainda que não avisou o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre a reunião porque considerava que diretores da instituição tinham autonomia para esse tipo de interlocução.
Tecnicamente, a explicação existe.
Politicamente, o episódio continua produzindo ruído.
Porque no mercado financeiro confiança funciona como cristal fino. Pequenas rachaduras já bastam para gerar desconfiança. E quando um banqueiro em dificuldade aparece entrando tantas vezes no Banco Central, inevitavelmente surgem perguntas sobre influência, proximidade e tratamento diferenciado.
No fim, talvez a grande questão seja justamente esta.
Se mais de 20 visitas são “comuns”, então o que exatamente seria considerado incomum em Brasília?
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