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Justiça A CULPA É DOS OUTROS

Gilmar Mendes culpa mídia por desgaste e descrédito do STF

Ministro do Supremo atribui queda de confiança da população à atuação da imprensa, evita autocrítica sobre decisões da Corte e reacende debate sobre ativismo judicial e excesso de poder

10/05/2026 às 04h00
Por: Douglas Ferreira
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Gilmar Mendes imita o PT e põe a culpa na mídia - Foto: Reprodução
Gilmar Mendes imita o PT e põe a culpa na mídia - Foto: Reprodução

As declarações do ministro Gilmar Mendes sobre a crise de confiança no Supremo Tribunal Federal voltaram a incendiar um debate que há muito tempo deixou os gabinetes de Brasília e ganhou as ruas, as redes sociais e o imaginário político do país. Ao atribuir o desgaste da Corte a uma espécie de “corredor polonês” promovido pela imprensa, Gilmar praticamente descartou qualquer possibilidade de autocrítica interna dentro do próprio STF.

O ponto que mais chama atenção nas declarações do ministro não é apenas a crítica à mídia, mas a ausência completa de reconhecimento de possíveis excessos, erros ou desgastes produzidos pelas próprias decisões da Corte ao longo dos últimos anos. Para críticos do Supremo, o problema da perda de confiança popular não nasce apenas das manchetes de jornal. Surge também da percepção crescente de concentração de poder, decisões monocráticas controversas e investigações que se prolongam por tempo indefinido.

O chamado “inquérito do fim do mundo”, como ficou conhecido entre juristas e setores políticos o inquérito das fake news instaurado em 2019, tornou-se símbolo desse debate. O procedimento, conduzido dentro do próprio STF e sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, é constantemente alvo de críticas por parte de juristas, parlamentares e setores da sociedade que enxergam ali uma expansão inédita das competências do Supremo. Para defensores da Corte, porém, o inquérito foi instrumento necessário para conter ataques institucionais e ameaças antidemocráticas.

A discussão vai muito além de um processo específico. O que está em jogo é a percepção pública sobre os limites constitucionais do Judiciário. Afinal, até onde vai o papel do STF como guardião da Constituição e em que ponto começa um protagonismo político excessivo? Essa é a pergunta que hoje atravessa universidades, redações, parlamentos e até rodas de conversa comuns do país.

O desgaste se aprofunda ainda mais quando surgem episódios envolvendo relações entre ministros e setores econômicos ou empresariais. O chamado Caso Master, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master, ampliou esse ambiente de desconfiança. Parte da imprensa passou a questionar relações contratuais e proximidades indiretas envolvendo familiares de ministros da Corte. Até o momento, não houve condenações ou comprovações definitivas de irregularidades envolvendo ministros do STF, mas o simples surgimento dessas suspeitas já produz enorme desgaste institucional.

Nesse contexto, a fala de Gilmar Mendes acaba sendo interpretada por muitos como tentativa de deslocar o foco do debate. Em vez de discutir a percepção pública sobre decisões controversas, ativismo judicial e possíveis excessos institucionais, o ministro concentra as críticas na atuação da imprensa. É como se o problema estivesse apenas no espelho que reflete a crise, e não na crise em si.

O episódio também carrega forte simbolismo histórico. Durante anos, Gilmar Mendes foi visto como um dos ministros mais duros contra escândalos de corrupção e contra excessos políticos de governos anteriores. Ficou marcada sua declaração classificando o governo do Partido dos Trabalhadores como uma “cleptocracia”. Hoje, porém, parte da opinião pública percebe um Gilmar mais alinhado institucionalmente ao sistema político tradicional e menos disposto a confrontar estruturas de poder como fazia no passado.

No fundo, o debate atual toca numa questão delicada para qualquer democracia. Nenhuma instituição republicana é infalível. Tribunais possuem enorme autoridade constitucional, mas seus integrantes continuam sendo agentes humanos, sujeitos a interpretações, pressões, escolhas políticas e eventuais erros. Quando a percepção pública é de ausência de autocrítica, o desgaste tende a crescer como ferrugem silenciosa corroendo a confiança institucional.

A crise de imagem do STF não será resolvida apenas com críticas à imprensa nem apenas com ataques ao Supremo. O desafio central talvez esteja justamente em encontrar equilíbrio entre autoridade institucional, transparência, autocontenção e capacidade de reconhecer limites dentro do próprio sistema democrático.

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