
A política brasileira virou um verdadeiro balaio de gato. É fio solto para todo lado, nó que ninguém desata e, no meio disso tudo, o eleitor tentando entender como foi parar nessa confusão. A pergunta é direta, quase um soco na mesa. Por que, com tanta gente, acabamos sendo governados tantas vezes por lideranças despreparadas, arrogantes ou desconectadas da realidade?
Não faltam explicações. Tem teoria para todos os gostos. Mas quando a coisa aperta, vale recorrer aos clássicos. E é aí que entra Platão, lá atrás, na Grécia Antiga, já cutucando exatamente essa ferida. E tá tudo em sua grande obra, A República.
Para ele, o problema mora dentro da própria democracia. Sim, dentro dela. Platão dizia que, "quando o poder é entregue à maioria sem o devido preparo, abre-se espaço para decisões baseadas em opinião, não em conhecimento". É como entregar o volante de um ônibus cheio a quem nunca dirigiu. Pode até dar certo por um tempo, mas o risco está sempre ali, rondando.
Ele falava da diferença entre "doxa e episteme". Opinião contra conhecimento. E alertava que, "a liberdade sem critério pode virar bagunça". Uma espécie de festa sem regra, onde no fim alguém sempre paga a conta mais cara.
A solução dele era ousada. Governo de "filósofos-reis". Gente preparada, com visão, com entendimento do que é justiça. Bonito no papel. Difícil na prática.
E aí o Brasil entra nessa história.
Porque, de certa forma, já experimentamos algo parecido. Fernando Henrique Cardoso não era um político tradicional. Era intelectual, sociólogo, homem de formação sólida. Um exemplo que poderia se encaixar na ideia platônica de governante preparado.
Mas a realidade mostrou outra coisa. No poder, teoria vira prática. E prática cobra preço. FHC teve que adaptar discurso, ajustar ideias, negociar com o mundo real. A famosa frase atribuída a ele, “esqueçam o que eu escrevi”, nunca foi comprovada literalmente, mas traduz um sentimento claro. Governar não é repetir livro, é lidar com pressão, interesse, limite.
Nesse cenário, também se insere a experiência dos governos de esquerda no Brasil, especialmente sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva. De origem operária, ele chegou à Presidência, prometendo o que nunca entregou, e a exerce pela terceira vez, após ter enfrentado processos judiciais por corrupção que resultaram em condenação e prisão. Posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal numa manobra juridica/processual. Sua trajetória é, ao mesmo tempo, símbolo de ascensão social e elemento central das controvérsias políticas que marcam o país nas últimas décadas.
E é aí que a teoria encontra seu limite.
Nem sempre o preparado governa melhor. Nem sempre o popular governa pior. A democracia é esse campo aberto, meio imprevisível, onde o voto decide, mas nem sempre acerta.
No fim das contas, o problema talvez não esteja só no sistema. Está no uso que se faz dele. Seja por elites tradicionais ou sindicais, o jogo continua sendo o mesmo. Disputa por poder.
A democracia segue sendo o menos pior dos caminhos. Mas não é mágica. Não transforma automaticamente escolha em qualidade.
E talvez Platão estivesse certo em parte. Não basta dar voz ao povo. É preciso que essa voz venha acompanhada de consciência. Que o povo seja dotado de educação transformadora, segurança, saúde, trabalho.
Porque, sem isso, a democracia vira como carro sem direção. Anda. Mas ninguém sabe exatamente para onde.
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