
O episódio envolvendo o presidente do Tribunal Superior do Trabalho não é apenas uma fala fora de tom. É como acender um farol alto no meio da neblina e, de repente, revelar o que muita gente já desconfiava, mas não via com tanta clareza.
Ao dividir magistrados entre “azuis” e “vermelhos” e se colocar dentro de um campo ideológico, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho não fez apenas uma crítica. Ele assumiu uma posição. E quando isso parte de quem ocupa a cadeira mais alta de uma Corte, o peso é outro. Não é conversa de bastidor, é sinal institucional.
O problema aqui não é opinião pessoal. Todo cidadão tem. O ponto é a função. Juiz não é comentarista político. Juiz é árbitro. E árbitro que veste camisa de time perde a credibilidade antes mesmo do apito inicial.
A Justiça, por definição, deveria ser como vidro transparente. Você olha e enxerga através. Quando começa a ganhar cor, perde a função. Fica turva, distorce a imagem, levanta dúvida.
A fala também revela uma inversão perigosa. Quando se substitui a aplicação da lei por “causa”, o risco é transformar julgamento em militância. E militância não julga, ela escolhe lado. Justiça não pode escolher lado. Justiça precisa escolher a lei.
É nesse ponto que a crítica ganha força. O presidente de uma Corte superior, especialmente na Justiça do Trabalho, deveria atuar como referência de equilíbrio. A função exige uma postura quase daltônica diante da polarização política. Não cabe ao juiz enxergar azul ou vermelho. Cabe a ele enxergar o que está nos autos.
Quando essa linha é cruzada, o impacto não fica restrito ao discurso. Ele respinga na confiança. E confiança, no Judiciário, é tudo. Sem ela, qualquer decisão passa a ser vista com suspeita, como jogo com resultado combinado.
O caso não surge isolado. Ele aparece em um contexto de tensão política, derrotas recentes do governo no Congresso e um ambiente já carregado. Isso torna a fala ainda mais sensível, porque mistura Justiça com clima político, algo que deveria ser mantido em compartimentos separados.
No fim das contas, a questão é simples e direta. Pode um juiz ter convicções pessoais? Pode. Deve levá-las para dentro da decisão? Não.
Porque quando a toga ganha cor, a Justiça perde o tom.
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