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Justiça TRIBUNAL DO JÚRI

Quase um século de prisão, mas a dor é perpétua: justiça chega tarde para Emilly Caetano

Policial é condenado a 97 anos por matar criança em abordagem em Teresina, mas sentença não repara a perda irreparável de uma família

03/05/2026 às 04h08 Atualizada em 03/05/2026 às 09h50
Por: Douglas Ferreira
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Emilly e o buraco da bala fatal no carro da família - Foto: Reprodução
Emilly e o buraco da bala fatal no carro da família - Foto: Reprodução

Tem coisa que parece que nunca chega ao fim. É igual novela que se arrasta, muda de capítulo, troca de cenário, mas a dor do começo continua ali, intacta. O caso da pequena Emilly Caetano é assim. Quem lembra, não esquece. Quem não lembra, deveria.

Era Natal de 2017. Dia de luz, de família, de esperança. Mas, em Teresina, virou noite de tragédia. Uma criança de 9 anos, sentada no banco de trás, foi morta a tiros dentro do carro da própria família. Não foi bala perdida. Foi tiro direto. Disparo de quem deveria proteger.

A abordagem virou perseguição. A perseguição virou execução. E o que era para ser segurança virou medo.

O pai, baleado na cabeça, carrega até hoje as marcas. Perdeu parte da audição. Mas a maior perda ninguém devolve. Porque perder uma filha desse jeito não tem remendo, não tem conserto, não tem volta.

E a justiça? Ah, a justiça… andou no ritmo de tartaruga cansada. O caso se arrastou por anos. Ano vai, ano vem, e nada de desfecho. É como empurrar pedra morro acima. Quando parece que vai chegar, rola tudo de novo.

Mas, desta vez, chegou.

O soldado da Polícia Militar do Piauí, Aldo Luís Barbosa Dornel, foi condenado a 97 anos de prisão. Quase um século. Um número que impressiona, mas que, para muita gente, ainda não mede o tamanho da dor causada. Além dele, o policial Francisco Venício Alves também foi condenado por fraude processual. Mexeu na cena do crime. Tentou apagar rastros. Como quem varre sujeira para debaixo do tapete achando que ninguém vai perceber.

Mas percebe.

O julgamento durou mais de 24 horas. Foi longo, pesado, carregado. Como tinha que ser. Porque ali não se julgava só um ato. Se julgava uma conduta, um comportamento, um limite que foi ultrapassado.

E os detalhes do caso são de gelar.

Viatura sem giroflex. Abordagem sem identificação clara. Perseguição em plena via urbana. E, no final, tiros contra um carro com uma família inteira dentro. É como usar um martelo para matar uma formiga. Desproporcional, irresponsável e fatal.

E ainda teve mais.

Depois dos disparos, houve tentativa de alterar a cena. Recolher cápsulas. Mudar posição de viatura. Como se fosse possível reescrever o que já tinha sido feito. Como se a verdade fosse algo que se apaga com a mão.

Não é.

A condenação veio. A farda foi perdida. A prisão foi decretada ali mesmo, em plenário. Um desfecho que muitos esperavam. Um alívio que chega tarde. Tarde demais para quem perdeu.

E fica a reflexão.

Quando quem deveria proteger vira ameaça, o que sobra para o cidadão comum? Quando a força se sobrepõe à razão, quem segura a mão que puxa o gatilho?

Porque segurança pública não é licença para atirar. Não é carta branca para agir sem medida. Não é poder absoluto.

É responsabilidade.

O caso de Emilly não é só sobre o passado. É um alerta. É um grito. É um lembrete de que o Estado precisa ser forte, sim. Mas antes de tudo, precisa ser justo.

Porque quando a justiça demora, ela falha.
E quando a proteção vira risco, a sociedade inteira perde.

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