
O caso em São Bernardo do Campo é daqueles que chocam e deixam marca. Um homem matou a própria esposa a tiros dentro de casa, após uma discussão, e a filha da vítima presenciou tudo. A cena é brutal, íntima e reveladora. Não aconteceu na rua, não foi em um assalto, foi dentro do lar. O lugar que deveria ser seguro virou cenário de execução.
E o mais duro é perceber que isso não é exceção. Está virando rotina.
Se a gente olhar os números, a coisa assusta. É como aquele vazamento pequeno que ninguém conserta e, de repente, vira uma enchente.
Lá atrás, entre 2020 e 2022, o Brasil já registrava mais de 1.300 feminicídios por ano. Já era grave. Já era inaceitável. Mas, ao invés de cair, o número subiu.
De 2023 pra cá, o país entrou num novo patamar. Passou fácil dos 1.400 casos por ano. E não é pico isolado, não. É estabilidade lá em cima. É como se o absurdo tivesse virado normal.
E aqui entra a ferida.
Se o discurso é de amor, de reconstrução, de pacificação, por que os números seguem na direção oposta? Como é que o “amor venceu”, mas a violência também venceu junto?
Não fecha.
É como dizer que a casa está em ordem enquanto o telhado continua pingando dentro da sala.
E não para por aí.
Além do feminicídio, outros crimes letais também cresceram. A violência contra homossexuais, por exemplo, segue escalando. É como se a intolerância estivesse correndo solta, sem freio, sem consequência real.
O que se vê é um país onde o discurso vai por um caminho e a realidade vai por outro.
E a realidade é dura.
Mulheres continuam morrendo dentro de casa, muitas vezes por quem dizia amar. Homossexuais continuam sendo alvo de violência brutal. Famílias continuam sendo destruídas.
E a resposta?
Sempre depois. Sempre correndo atrás. Sempre enxugando gelo.
Distribui campanha, faz discurso, cria programa… mas o problema continua ali, firme, como mato que cresce mais rápido do que se consegue cortar.
O caso de São Bernardo é só o retrato mais recente. Mas o filme é antigo. E está passando em looping.
No fim das contas, a pergunta é simples e incômoda.
Se os números pioram, se a violência cresce, se as mortes aumentam… o que, de fato, está dando errado?
Porque quando o discurso é bonito, mas o resultado é feio, alguma coisa não está funcionando.
E não adianta maquiar número.
A realidade sempre aparece.
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