
Num passado não muito distante, o médico e professor Nazareno Fonteles subiu no "palanque eletrônico" e fez o que parecia apenas mais um discurso de campanha. Falou com firmeza, apontou erros, criticou práticas e desenhou um cenário que, à época, servia como munição contra adversários. Só que a política, tal qual roda de engenho, gira. E gira sem avisar. Anos depois, aquelas mesmas palavras voltaram como um bumerangue bem dado, daqueles que a gente lança achando que vai longe e ele retorna direto na testa de quem jogou.
A internet, como se sabe, não tem coração mole. Não esquece e não perdoa. O vídeo foi resgatado do fundo do baú, como relíquia de feira antiga, e hoje circula com força nas redes, embalado pela fé popular em “Nossa Senhora do Printe”. Ou seria “Nossa Senhora do Vídeo”? O nome pouco importa. O milagre está feito. A fala de ontem caiu como uma luva no cenário de hoje. O que era crítica para fora virou espelho para dentro. E a oposição, que não é besta nem nada, tratou logo de puxar o fio dessa meada e expor o novelo inteiro.
Coisa da vida. Quem apontava o dedo agora se vê dentro do mesmo retrato. O paladino da moralidade passa a conviver com a elite que antes criticava, e não só ele, mas também o filho, hoje governador. É como diz o povo no interior, com a sabedoria de quem aprende mais na lida do que nos livros: língua não tem osso, mas quebra caroço. Ou, noutra versão mais afiada, língua não tem osso, mas quebra o pescoço. Palavra dita é igual flecha lançada, não tem como voltar atrás. E quando volta, não vem mansa, vem cobrando conta.
No fim das contas, nem o próprio Nazareno, nem o mais astuto dos analistas políticos, daqueles que farejam cenário como cachorro de caça, seriam capazes de imaginar que aquela fala acertaria tão em cheio. Foi profecia, dessas que parecem exagero na hora, mas depois se encaixam como peça de quebra-cabeça. Só que, dessa vez, a profecia não foi contra adversário. Foi doméstica. E dessas, quando se cumprem, o barulho é maior, porque ecoa dentro de casa e na praça ao mesmo tempo.
E tem mais um detalhe que deixa essa história ainda mais atravessada. Nazareno batia forte nas elites do Piauí, apontava privilégios, denunciava concentrações de poder, falava como quem queria virar a mesa e trocar os donos do jogo. Só que o tempo passou, a política mudou de mãos e aquelas elites de outrora, pelo menos na cena política, foram saindo de cena. O que se tem hoje é outro desenho. Há 24 anos, o Piauí é governado pela esquerda. A casa mudou de dono, mas a casa continua de pé.
E aí entra a frase que virou quase confissão de época. “Nós hoje somos o sistema”, disse Lula, sem nenhuma cerimônia. Se antes o discurso era contra as elites, agora a pergunta é outra: quem são as elites de hoje? Porque, no fim das contas, o sistema não acaba, ele se renova. E no Piauí, os sobrenomes mudaram de lugar na mesa. Fonteles, Tajra, Dias, Solano, Bandeira, Noleto e companhia limitada passaram a ocupar o espaço que antes era alvo de crítica.
É como diz o sertanejo mais velho: quem muito aponta o dedo esquece que a mão tem cinco virados pra si. E quando a roda gira, não tem santo que segure nem promessa que esconda.
Confira o vídeo:
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