
A rejeição de Jorge Messias pelo Senado foi tratada como um gesto de força institucional. E, de fato, há um simbolismo importante em ver a Casa Alta exercer sua prerrogativa e barrar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. Mas, passada a euforia, cabe uma reflexão menos confortável. E se o Senado tiver errado ao rejeitar justamente um nome que espelha o modelo já dominante na própria Corte?
A Constituição é clara apenas na aparência. Exige idade entre 35 e 70 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada. Mas esses critérios são, na prática, abertos, subjetivos e politicamente interpretáveis. Não há métrica objetiva para “notável saber”, tampouco régua única para “reputação ilibada”. E quando se olha para a história do STF, a pergunta inevitável surge: quantos ministros, ao longo do tempo, preencheram esses requisitos sem controvérsia? Poucos. Muito poucos.
Nesse contexto, Jorge Messias não surge como um ponto fora da curva. Ao contrário. Ele parece moldado exatamente ao padrão que hoje se critica, mas que segue sendo aceito. Alinhado politicamente, próximo ao presidente da República e com trânsito consolidado no núcleo do poder. Sua eventual ida ao Supremo não representaria ruptura. Representaria continuidade.
E há um ponto ainda mais sensível. Em um cenário de evidente aproximação entre Executivo e STF, a chegada de Messias significaria apenas a mudança de lado do balcão, não de postura. Sairia da Advocacia-Geral da União, onde defende os interesses do governo, para a Corte que, em muitos momentos, arbitra esses mesmos interesses. A dúvida não é se isso é possível. É se isso ainda causa estranhamento.
Outro aspecto chama atenção. Messias não é apenas um operador jurídico. É também um operador político. Na sabatina, isso ficou evidente. Diante de questionamentos duros, especialmente sobre os eventos de 8 de janeiro, adotou uma estratégia conhecida em Brasília: ajustar o discurso ao ambiente. Declarações anteriores foram relativizadas. O tom foi suavizado. A memória, curiosamente, tornou-se seletiva. Não é novidade. É método.
E talvez seja justamente aí que reside uma de suas maiores credenciais dentro do sistema atual. A capacidade de dizer o necessário, no momento necessário, para o público necessário. Não se trata de convicção, mas de adaptação. E adaptação, na política brasileira, costuma valer mais do que coerência.
Há também o debate moral e ideológico. Mesmo se apresentando como evangélico, Messias adotou posições alinhadas às pautas defendidas pela esquerda, como no caso do aborto em determinadas circunstâncias. Isso revela outra característica típica do ambiente político: a prevalência do alinhamento ideológico sobre convicções pessoais públicas. Não é contradição. É cálculo.
Diante disso, o que se tem é um paradoxo.
O Senado rejeitou um nome que, em muitos aspectos, representa exatamente o tipo de perfil que já ocupa espaço no Supremo. Não por falta de encaixe no sistema, mas, possivelmente, por falha na articulação política que deveria sustentá-lo.
E aqui entra o ponto central. A rejeição de Messias não parece ter sido uma rejeição ao modelo. Foi uma rejeição ao governo. Um recado político, mais do que institucional. Uma demonstração de força, mais do que um julgamento técnico.
No fim, Messias não passou no “vestibular” do Senado. Foi reprovado na prova oral. Mas isso não apaga sua trajetória. Ao contrário, ele passou com folga nos critérios informais que, historicamente, sustentam nomeações em Brasília: confiança pessoal, alinhamento político e lealdade ao projeto de poder.
E talvez essa seja a conclusão mais incômoda.
A questão não é se Messias estava apto ao STF. A questão é que o sistema que o rejeitou continua sendo, em grande medida, o mesmo que o formou e, até aqui, sempre acolheu perfis semelhantes.
No Brasil, muda-se o personagem. O roteiro, quase nunca.
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