
Diante da mais recente polêmica envolvendo Gilmar Mendes, vale lembrar: não se trata de um episódio isolado. É um padrão. Um estilo. Uma marca registrada que desafia, com frequência, o decoro esperado de um ministro do Supremo.
Aos 70 anos e como o mais antigo integrante da Corte, seria natural que representasse sobriedade e equilíbrio. Mas, quando decide falar, Gilmar frequentemente ultrapassa a linha e transforma divergência em confronto pessoal.
Não é silêncio que marca sua trajetória, mas excesso. E não raramente, excesso de tom. De “gângsteres” a “cretinos”, de “cérebro de minhoca” a ataques diretos a autoridades e jornalistas, o ministro construiu um histórico de declarações que misturam crítica institucional com ofensa pessoal.
Teve episódio em que mandou repórter “enfiar a pergunta”. Já classificou investigadores como “gentalha despreparada”. Associou Curitiba ao “germe do fascismo”. Ironizou sotaques e chegou a fazer insinuações consideradas ofensivas.
Quando pressionado, raramente recua. Ao contrário: costuma justificar os excessos como “compromisso com a história”, como se o tom elevado fosse virtude, não problema.
O resultado é um ministro que, em vez de apaziguar, frequentemente incendeia o debate público.
E isso levanta uma questão incômoda: até que ponto a liberdade de expressão de um magistrado pode conviver com a responsabilidade do cargo que ocupa?
No Supremo, forma e conteúdo importam. E quando a forma se perde, o conteúdo também se contamina.
Mais do que opiniões fortes, espera-se postura. Porque, no fim, não é só o ministro que fala, é a instituição.
OUTRAS FRASES E EPISÓDIOS QUE MARCAM O TOM
1. “Cleptocracia”
Em um momento de forte crítica ao cenário político, Gilmar Mendes classificou o governo do PT como uma “cleptocracia”. A fala evidencia como o ministro, ao longo do tempo, alterna posicionamentos duros conforme o contexto político, o que alimenta a percepção de contradição.
2. “Método de gângster”
Durante julgamento no STF sobre caixa dois e Justiça Eleitoral, atacou a Operação Lava Jato, afirmando que havia pressão indevida sobre a Corte. A crítica extrapolou o institucional e entrou no campo da desqualificação direta.
3. “Gentalha despreparada” e “cretinos”
No mesmo ambiente de tensão, direcionou ofensas a membros do Ministério Público, elevando o nível do confronto para o ataque pessoal explícito.
4. “Curitiba tem o germe do fascismo”
Em entrevista, ampliou sua crítica à Lava Jato ao associar a cidade ao ambiente político que favoreceu o bolsonarismo, gerando reação imediata e acusações de generalização.
5. “Cérebro de minhoca”
Em declaração posterior, voltou a atacar investigadores, questionando sua capacidade intelectual e classificando o período da Lava Jato como uma fase obscura.
6. “Mórbida patologia psíquica”
Ao comentar a atuação de procuradores, recorreu a termos da psiquiatria para desqualificar adversários institucionais, reforçando o padrão de retórica agressiva.
7. Ataque a jornalista
No episódio em Lisboa, ao ser questionado sobre despesas de viagem, reagiu com grosseria, evidenciando intolerância a questionamentos básicos da imprensa.
8. Ironia com sotaque de Romeu Zema
Em embate recente, debochou da forma de falar do governador, comparando-a a um “dialeto”, o que ampliou o desgaste público.
9. Insinuação controversa
Ao discutir limites de sátiras, utilizou exemplo envolvendo orientação sexual, gerando fortes críticas e levando-o posteriormente a pedir desculpas.
10. “Não sabe escrever ‘tigela’”
Em tom de deboche, questionou a capacidade intelectual de Sergio Moro, sugerindo dependência de terceiros para produção de textos.
11. Ataque a Rodrigo Janot
Em sessão, afirmou que o ex-procurador-geral “já estava bêbado” em determinado horário, levando o debate a um nível pessoal raro para a Corte.
Ao reunir essas falas, o que se vê não é apenas um conjunto de declarações polêmicas, mas um padrão consistente de atuação verbal que oscila conforme o cenário político. Gilmar Mendes é, ao mesmo tempo, crítico feroz de determinados períodos e agente ativo de outros arranjos institucionais.
Essa dualidade, ou contradição, é parte central da sua trajetória. E ajuda a explicar por que suas falas repercutem tanto, não apenas pelo conteúdo, mas pela imprevisibilidade de quem as profere.
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