
Quando a Justiça precisa lembrar que advogado também pode cruzar a linha, é sinal de que algo saiu do eixo. A decisão do Tribunal de Justiça do Piauí de comunicar oficialmente a suspensão do registro profissional de Fernando Etchevery Cipriano por 90 dias não é apenas um ato burocrático. É um recado. E recado duro. A engrenagem do sistema jurídico, que deveria funcionar como relógio suíço, às vezes revela peças enferrujadas.
O caso não nasceu do nada. O advogado foi indiciado em três inquéritos conduzidos pela Polícia Civil do Piauí, acusado de estelionato e furto qualificado. E não se trata de qualquer perfil de vítima. Segundo as investigações, os alvos eram pessoas idosas e vulneráveis. É como se alguém que deveria defender o cofre tivesse sido flagrado mexendo nas chaves. A gravidade não está apenas no crime em si, mas no papel de quem o teria cometido.
A suspensão aplicada pela OAB do Piauí tem caráter cautelar. Funciona como um freio de mão puxado em plena descida. Não é condenação definitiva, mas também não é detalhe irrelevante. É um mecanismo para impedir que, enquanto as investigações avançam, novos danos possam ocorrer. A contagem dos 90 dias passa a valer a partir da formalização e comunicação oficial da medida, que foi reforçada pelo ofício do desembargador Erivan Lopes no dia 9 de abril às unidades judiciais. A partir daí, o recado virou regra dentro do sistema.
Outro ponto que chama atenção é o histórico recente. Fernando Cipriano chegou a ser preso em setembro do ano passado pela Delegacia de Crimes contra o Patrimônio em Picos. A prisão, somada aos indiciamentos, desenha um cenário que não pode ser tratado como episódio isolado. Parece mais uma sequência de capítulos de um mesmo enredo.
E a defesa? Como em todo caso que ainda não transitou em julgado, há contestação. O advogado nega irregularidades e questiona os elementos das investigações. Sustenta, segundo informações do caso, que não há comprovação suficiente das acusações e que o devido processo legal precisa ser respeitado. É o direito de defesa em ação, como manda o manual do Estado de Direito. Mas, ao mesmo tempo, é justamente essa disputa de versões que mantém o caso em ebulição.
Até o momento, não há confirmação pública de ressarcimento integral às vítimas. E esse silêncio pesa. Porque quando o prejuízo recai sobre pessoas vulneráveis, o dano não é só financeiro. É emocional, psicológico, é quebra de confiança. É como tirar o chão de quem já caminhava com dificuldade.
O episódio escancara uma questão maior. A advocacia é uma das colunas do sistema de Justiça. Quando um profissional dessa área aparece no centro de acusações desse tipo, o impacto vai além do indivíduo. Atinge a credibilidade da própria estrutura. É como uma rachadura em uma parede que sustenta o prédio inteiro.
No fim das contas, o caso de Fernando Cipriano ainda está em curso. Mas já deixa uma lição incômoda. Não basta ter leis, códigos e instituições. É preciso que quem opera tudo isso esteja à altura da responsabilidade. Caso contrário, o sistema que deveria proteger pode acabar sendo usado como ferramenta de dano. E aí, a Justiça deixa de ser escudo e passa a ser risco.
COMIDA CARA Governo Lula recorre ao TSE contra vídeos sobre preço dos alimentos e abre debate sobre liberdade de expressão
SEGURANÇA JURÍDICA A manobra de Moraes após derrota no STF abre novo capítulo no caso do 8 de Janeiro
OPERAÇÃO VÉRNIX MP aponta Deolane como peça central de núcleo financeiro investigado por ligação com o PCC
MARIA DA PENHA Advogada alerta para risco de perda de efetividade da Lei Maria da Penha após ampliação do STF
DURA LEX SED LEX? Em busca do diferente?
LIVRE EXPRESSÃO Justiça do RN manda Meta reativar perfis bloqueados por Moraes
JUSTIÇA ELEITORAL Caso Flávio expõe uma questão que não pode ser ignorada: nenhum sistema informatizado é inviolável
FALTANDO JUÍZO? E a reta razão? Mín. 23° Máx. 39°