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Teresina TRAGÉDIA ANUNCIADA

Perigo institucionalizado: quando o poste invade a casa e o poder público se ausenta

Casos em Teresina expõem falhas estruturais, omissão prolongada e risco real à vida de moradores

14/04/2026 às 13h00 Atualizada em 14/04/2026 às 13h12
Por: Douglas Ferreira
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Nada explica tamanha negligência da Equatorial - Foto: Reprodução
Nada explica tamanha negligência da Equatorial - Foto: Reprodução

O que se vê não é apenas uma cena inusitada. É o retrato de uma falha estrutural que atravessa o tempo e revela, com nitidez desconfortável, a ausência de coordenação entre planejamento urbano, concessionárias e poder público. Postes instalados dentro de propriedades privadas, com fiação sobre residências, não são fruto do acaso, mas consequência direta de decisões mal executadas e, sobretudo, não corrigidas.

A situação registrada na zona Norte de Teresina desmonta qualquer tentativa de tratar o problema como exceção. Não se trata de um episódio isolado, mas de um padrão silencioso, naturalizado pela demora em agir. A permanência dessas estruturas em locais inadequados evidencia uma cadeia de omissões: o erro inicial de alinhamento, a expansão urbana sem readequação da rede elétrica e, por fim, a inércia diante de solicitações formais dos moradores.

O risco, nesse contexto, deixa de ser hipotético. Ele é cotidiano. Fios que balançam com o vento, cabos que já caíram sobre casas, relatos de princípio de incêndio e a presença constante de idosos e crianças compõem um cenário onde a probabilidade de acidente não é remota, mas progressiva. A cada chuva, a cada rajada de vento, renova-se a possibilidade de uma tragédia anunciada.

A responsabilidade, por sua vez, permanece difusa apenas na aparência. A concessionária Equatorial Piauí foi formalmente acionada, há protocolos registrados e, ainda assim, a solução não se concretiza. Isso levanta uma questão central: qual é o limite da tolerância institucional diante de um risco evidente? Espera-se o dano para agir ou a prevenção ainda tem valor operacional?

Outro aspecto relevante é o impacto indireto. A presença dos postes não apenas ameaça a integridade física dos moradores, mas também restringe o direito de uso da propriedade. Obras são interrompidas, espaços deixam de ser aproveitados e o desenvolvimento urbano local fica comprometido. O problema, portanto, não é apenas elétrico, é também social e econômico.

Caso estranho também no Espírito Santo

Num passado recente esta cena foi registrada no Estado do Espírito Santo - Foto: Reprodução

O paralelo com o caso do Espírito Santo, onde uma estrada foi entregue com postes no meio da pista, reforça que a questão transcende fronteiras regionais. Trata-se de uma cultura de improviso e desarticulação, onde obras e infraestruturas coexistem de forma conflitante, sem planejamento integrado. Em ambos os casos, o risco é transferido para o cidadão, que passa a conviver com soluções provisórias que se tornam permanentes.

No fundo, o que está em jogo é a banalização do perigo. Quando situações como essas persistem por anos, elas deixam de causar indignação imediata e passam a ser incorporadas ao cotidiano. É exatamente nesse ponto que reside o maior risco: o de que o absurdo se torne aceitável até que, inevitavelmente, cobre seu preço.

A pergunta que permanece não é apenas por que o problema existe, mas por que ele continua existindo. E, mais grave, quem responderá quando a negligência deixar de ser apenas um incômodo e se transformar em tragédia.

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