
O Brasil é um país curioso. Aqui, quando a gasolina sobe, o povo reclama. Quando o diesel dispara, o frete aumenta. Quando o frete aumenta, sobe o preço do arroz, do feijão e até do pão francês. Mas sempre aparece alguém com diploma internacional para explicar que, no fundo, isso é bom.
Foi exatamente essa a sensação provocada pelo artigo “Por que combustível caro é bom”, publicado na Folha de S.Paulo pelo economista Bernardo Guimarães, professor da Fundação Getulio Vargas e doutor por Yale University.
A tese rapidamente virou meme. E o motivo é simples. O argumento lembra muito o estilo pedagógico da jornalista Míriam Leitão. Aquela didática de quadro negro imaginário em que o professor explica para o aluno por que pagar mais caro na bomba é, na verdade, uma lição econômica.
Um dos memes que circularam nas redes mostrava justamente Míriam Leitão diante de um quadro verde, com ar professoral, a manchete do artigo ao lado e a legenda curta e certeira. “Míriam Leitão fazendo escola”.
A ironia viralizou porque o brasileiro comum conhece a realidade fora da sala de aula.
No artigo, Bernardo Guimarães sustenta que combustíveis caros incentivam inovação tecnológica, reduzem o consumo de petróleo e aceleram a transição energética.
A lógica é elegante. Se a gasolina sobe, as pessoas procuram carros mais eficientes. Se o diesel dispara, empresas investem em tecnologias mais limpas. No longo prazo, todos ganham.
No papel funciona como um relógio suíço. Na vida real funciona mais como um relógio de feira.
A primeira fragilidade da tese aparece quando se olha para a estrutura econômica do país. O Brasil não é a Holanda das bicicletas. Nem a Noruega dos carros elétricos. O Brasil roda de caminhão.
Mais de 60 por cento da carga nacional circula por rodovias. Cada centavo a mais no diesel se espalha pela economia como tinta derramada no chão.
O combustível sobe. O frete sobe. O supermercado sobe. O restaurante sobe. O custo de vida sobe.
Dizer que combustível caro é bom para o Brasil é quase como afirmar que chuva dentro de casa é ótima porque lava o chão.
Outro detalhe que a tese ignora é o brasileiro que vive do volante. Motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores, representantes comerciais. Milhões de pessoas usam o carro não como luxo, mas como ferramenta de trabalho.
Para esse grupo, combustível caro não é estímulo à inovação. É redução direta de renda. É como pedir para um pescador comemorar o aumento do preço da gasolina do barco porque isso incentiva a pesquisa em energia eólica.
O artigo também aposta na substituição gradual dos carros a combustão por veículos elétricos. A ideia parece moderna, sustentável e inevitável. O problema é a matemática.
O Brasil tem mais de cem milhões de veículos circulando. A esmagadora maioria movida a gasolina ou diesel. O que fazer com eles?
Mandar para o ferro velho? Derreter todos de uma vez? Transformar em esculturas urbanas?
Mesmo que todos decidissem trocar de carro amanhã, não existem veículos elétricos suficientes no mercado mundial para atender essa demanda. Seria como decretar que todos devem abandonar o fogão a gás quando ainda não existem fogões elétricos suficientes nas lojas.
A narrativa dos motores limpos também costuma esquecer um capítulo menos romântico da história. As baterias.
A produção de baterias envolve mineração intensiva de lítio, cobalto e outros minerais. O descarte dessas baterias também representa um desafio ambiental gigantesco.
Trocar um problema ambiental por outro maior não é exatamente uma revolução ecológica. É mais parecido com trocar um buraco na estrada por uma cratera.
Existe ainda um ponto raramente lembrado nesse debate. O preço dos combustíveis no Brasil não depende apenas de guerras internacionais ou crises globais.
Ele também reflete escolhas de política energética e decisões tomadas ao longo de décadas.
Entre elas escândalos de corrupção que paralisaram refinarias planejadas, projetos bilionários abandonados e episódios famosos como a compra da sucata da refinaria de Pasadena por valores muito superiores ao mercado durante o governo de Dilma Rousseff.
Quando investimentos estratégicos são destruídos, o país paga a conta depois na bomba.
A grande ironia desse debate é que ele acabou revelando um choque entre duas visões de mundo.
De um lado a teoria elegante, cheia de gráficos e curvas de longo prazo. Do outro lado a vida real de quem precisa abastecer o carro amanhã para trabalhar.
No papel, combustível caro pode até parecer pedagógico. Na bomba do posto, ele continua sendo apenas caro.
E para entender isso, convenhamos, não é preciso doutorado em Yale.
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