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Combustível caro “é bom”? A teoria que virou meme

Artigo de economista publicado na Folha de S.Paulo e associado ao estilo pedagógico de Míriam Leitão viraliza nas redes e reacende o debate sobre o impacto real do preço da gasolina na economia brasileira

09/04/2026 às 04h02 Atualizada em 09/04/2026 às 12h53
Por: Douglas Ferreira
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Os memes logo ganharam as redes sociais - Foto: Reprodução
Os memes logo ganharam as redes sociais - Foto: Reprodução

O Brasil é um país curioso. Aqui, quando a gasolina sobe, o povo reclama. Quando o diesel dispara, o frete aumenta. Quando o frete aumenta, sobe o preço do arroz, do feijão e até do pão francês. Mas sempre aparece alguém com diploma internacional para explicar que, no fundo, isso é bom.

Foi exatamente essa a sensação provocada pelo artigo “Por que combustível caro é bom”, publicado na Folha de S.Paulo pelo economista Bernardo Guimarães, professor da Fundação Getulio Vargas e doutor por Yale University.

A tese rapidamente virou meme. E o motivo é simples. O argumento lembra muito o estilo pedagógico da jornalista Míriam Leitão. Aquela didática de quadro negro imaginário em que o professor explica para o aluno por que pagar mais caro na bomba é, na verdade, uma lição econômica.

Um dos memes que circularam nas redes mostrava justamente Míriam Leitão diante de um quadro verde, com ar professoral, a manchete do artigo ao lado e a legenda curta e certeira. “Míriam Leitão fazendo escola”.

A ironia viralizou porque o brasileiro comum conhece a realidade fora da sala de aula.

A teoria elegante

No artigo, Bernardo Guimarães sustenta que combustíveis caros incentivam inovação tecnológica, reduzem o consumo de petróleo e aceleram a transição energética.

A lógica é elegante. Se a gasolina sobe, as pessoas procuram carros mais eficientes. Se o diesel dispara, empresas investem em tecnologias mais limpas. No longo prazo, todos ganham.

No papel funciona como um relógio suíço. Na vida real funciona mais como um relógio de feira.

A economia brasileira não roda de patinete

A primeira fragilidade da tese aparece quando se olha para a estrutura econômica do país. O Brasil não é a Holanda das bicicletas. Nem a Noruega dos carros elétricos. O Brasil roda de caminhão.

Mais de 60 por cento da carga nacional circula por rodovias. Cada centavo a mais no diesel se espalha pela economia como tinta derramada no chão.

O combustível sobe. O frete sobe. O supermercado sobe. O restaurante sobe. O custo de vida sobe.

Dizer que combustível caro é bom para o Brasil é quase como afirmar que chuva dentro de casa é ótima porque lava o chão.

O trabalhador invisível da teoria

Outro detalhe que a tese ignora é o brasileiro que vive do volante. Motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores, representantes comerciais. Milhões de pessoas usam o carro não como luxo, mas como ferramenta de trabalho.

Para esse grupo, combustível caro não é estímulo à inovação. É redução direta de renda. É como pedir para um pescador comemorar o aumento do preço da gasolina do barco porque isso incentiva a pesquisa em energia eólica.

O mito da transição instantânea

O artigo também aposta na substituição gradual dos carros a combustão por veículos elétricos. A ideia parece moderna, sustentável e inevitável. O problema é a matemática.

O Brasil tem mais de cem milhões de veículos circulando. A esmagadora maioria movida a gasolina ou diesel. O que fazer com eles?

Mandar para o ferro velho? Derreter todos de uma vez? Transformar em esculturas urbanas?

Mesmo que todos decidissem trocar de carro amanhã, não existem veículos elétricos suficientes no mercado mundial para atender essa demanda. Seria como decretar que todos devem abandonar o fogão a gás quando ainda não existem fogões elétricos suficientes nas lojas.

O detalhe incômodo das baterias

A narrativa dos motores limpos também costuma esquecer um capítulo menos romântico da história. As baterias.

A produção de baterias envolve mineração intensiva de lítio, cobalto e outros minerais. O descarte dessas baterias também representa um desafio ambiental gigantesco.

Trocar um problema ambiental por outro maior não é exatamente uma revolução ecológica. É mais parecido com trocar um buraco na estrada por uma cratera.

O combustível caro e a política energética

Existe ainda um ponto raramente lembrado nesse debate. O preço dos combustíveis no Brasil não depende apenas de guerras internacionais ou crises globais.

Ele também reflete escolhas de política energética e decisões tomadas ao longo de décadas.

Entre elas escândalos de corrupção que paralisaram refinarias planejadas, projetos bilionários abandonados e episódios famosos como a compra da sucata da refinaria de Pasadena por valores muito superiores ao mercado durante o governo de Dilma Rousseff.

Quando investimentos estratégicos são destruídos, o país paga a conta depois na bomba.

Não é preciso Yale para entender

A grande ironia desse debate é que ele acabou revelando um choque entre duas visões de mundo.

De um lado a teoria elegante, cheia de gráficos e curvas de longo prazo. Do outro lado a vida real de quem precisa abastecer o carro amanhã para trabalhar.

No papel, combustível caro pode até parecer pedagógico. Na bomba do posto, ele continua sendo apenas caro.

E para entender isso, convenhamos, não é preciso doutorado em Yale.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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