
“A política é a arte do possível”. A frase atribuída a Otto von Bismarck, o lendário “chanceler de ferro”, tornou-se um dos aforismos mais repetidos da história política. Em sua essência, a máxima reconhece algo bastante humano. Governar exige flexibilidade, capacidade de adaptação e leitura constante das circunstâncias.
O problema começa quando essa flexibilidade deixa de ser estratégia e passa a ser ginástica retórica.
No Brasil, alguns políticos parecem ter reinterpretado a frase de Bismarck como se fosse um manual para negar o que disseram ontem e defender hoje exatamente o contrário. Não se trata apenas de adaptação política. Em certos casos, parece mais uma corruptela da expressão original. Uma espécie de versão tropical da máxima bismarckiana, na qual o possível vira conveniente e o conveniente vira narrativa.
O episódio mais recente envolve o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad e a famosa “taxa das blusinhas”. A medida que taxou compras internacionais de até 50 dólares se tornou uma das políticas mais impopulares do atual governo.
Agora, curiosamente, o mesmo Haddad que esteve no centro da política fiscal do governo tenta convencer o público de que nunca quis a taxação. O discurso soa como aquele aluno que participa da bagunça na sala inteira e depois afirma ao professor que apenas estava passando pelo corredor.
A política brasileira tem dessas metamorfoses quase literárias.
Durante meses, o governo defendeu a necessidade de aumentar a arrecadação e apresentou a taxação como mecanismo de “equilíbrio competitivo” entre empresas nacionais e plataformas estrangeiras. O Congresso aprovou. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a medida sem vetos.
Mas agora o clima político mudou.
A proximidade de eleições tem um efeito curioso no comportamento de governos. Ela funciona como chuva em telhado antigo. De repente começam a aparecer goteiras que ninguém tinha visto antes. Impostos que eram necessários viram equívocos. Decisões firmes viram mal-entendidos.
E Haddad tenta se afastar da medida como quem se afasta de uma fotografia embaraçosa.
A dificuldade é que a internet tem memória de elefante e ironia de comediante. Tem até padroeira, "nossa senhora do print". Foi justamente nas redes que nasceu o apelido “Taxad”. Um trocadilho que mistura sobrenome e política fiscal. Memes, vídeos e piadas se multiplicaram como erva daninha em calçada abandonada.
Há quem diga que o apelido vai acompanhar o ministro pela vida política inteira, como aqueles personagens de histórias folclóricas que carregam um fantasma invisível sobre os ombros.
O mais intrigante é que, mesmo com esse estigma e com o histórico de ter perdido a reeleição na prefeitura de São Paulo, setores da esquerda, incluindo, Lula, PT e puxadinhos, ainda alimentam a expectativa de que Haddad possa disputar com força o governo paulista, e ocupar o Palácio dos Bandeirantes.
A aposta parece tão ousada quanto acreditar que um goleiro famoso por falhar em pênaltis se tornará especialista justamente nas cobranças decisivas.
Enquanto isso, o governo tenta redesenhar sua narrativa em outras frentes. O mesmo presidente que enfrentou resistência popular após uma proposta de maior monitoramento de transações agora aparece como defensor entusiasmado do Pix.
Na política brasileira, mudanças de posição são tão frequentes quanto mudanças de clima no litoral. De manhã faz sol. À tarde chove. À noite o discurso já mudou novamente. É como dizia José Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.
É nesse cenário que surge a pergunta inevitável. Trata-se de estratégia política legítima ou de uma espécie de amnésia seletiva coletiva?
Alguns analistas chamariam de pragmatismo. Outros talvez prefiram termos menos elegantes.
Talvez Bismarck tivesse dificuldade em reconhecer sua frase original no espelho da política brasileira contemporânea. Aqui, a arte do possível às vezes parece mais a arte do improvável. Ou até do impossível.
Mas, como dizem alguns observadores mais irônicos da cena nacional, em se tratando da esquerda brasileira, tudo é possível. Inclusive nada.
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