
A esquerda brasileira é um fenômeno curioso. Em teoria, ela se apresenta como guardiã da coerência ideológica, da justiça social e da superioridade moral. Na prática, frequentemente se comporta como um laboratório permanente de contradições. Contradição elevada à enésima potência. Contradição que beira o contrassenso. Contradição que se mistura com incoerência e, em muitos casos, desemboca na mais pura hipocrisia política.
O caso recente envolvendo a internet da Starlink, empresa do bilionário Elon Musk, é um retrato quase didático desse fenômeno. Um episódio que parece escrito por um roteirista especializado em ironias históricas. Enquanto parte significativa da esquerda brasileira dedica energia quase religiosa a demonizar Musk, chamando-o de inimigo da democracia, a própria diplomacia brasileira utiliza sua tecnologia para escapar da censura de um regime autoritário.
O cenário é o Irã, governado pela teocracia dos aiatolás. Quando regimes autoritários enfrentam crises ou conflitos, costumam recorrer ao instrumento mais antigo da tirania moderna: desligar a internet. É o equivalente digital a apagar as luzes de uma cidade sitiada. O isolamento informacional transforma o país numa espécie de ilha medieval no século XXI. Dissidentes são silenciados, cidadãos ficam desinformados e diplomatas estrangeiros passam a operar praticamente às cegas.
Mas nem todos.
A Embaixada do Brasil em Teerã conseguiu escapar desse apagão digital graças a uma antena da Starlink instalada na residência do novo embaixador brasileiro, André Veras Guimarães. Enquanto a ditadura iraniana ergue muros eletrônicos para bloquear a informação, a tecnologia de Musk funciona como uma escada sobre o muro. O regime tenta silenciar o país. O satélite ignora a ordem e continua transmitindo.
A ironia política é tão evidente que quase provoca constrangimento. De um lado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e setores da esquerda brasileira atacam Musk com a mesma intensidade com que pregadores medievais denunciavam hereges. Do outro, a infraestrutura tecnológica do empresário se transforma na linha vital que mantém a diplomacia brasileira conectada no coração de uma ditadura.
A contradição lembra a clássica imagem de alguém que cospe no prato enquanto continua a comer nele. Critica-se o cozinheiro, amaldiçoa-se a receita, mas o jantar segue sendo servido.
Nos últimos meses, Musk foi tratado por setores da esquerda como uma espécie de vilão global. Um magnata “de direita”, perigoso para a democracia, inimigo das instituições. A retórica alcançou níveis quase caricatos. No Brasil, ataques partiram de políticos, militantes digitais e até de autoridades que enxergam na tecnologia um campo de batalha ideológico. Lula não perde uma oportunidade de alfinetar Musk. Janja vai mais além. "Fuda-se Elon Musk", declarou a primeira-dama em público.
No entanto, quando a realidade impõe suas exigências práticas, a retórica evapora como névoa ao sol. A Starlink se torna indispensável. Não apenas no Irã. Em diversas regiões isoladas do planeta, inclusive na Amazônia brasileira, os satélites da empresa oferecem aquilo que governos prometeram durante décadas e raramente conseguiram entregar: conexão.
É como se um náufrago recusasse um bote salva-vidas porque não gosta do fabricante do barco. Mas, diante das ondas, acabasse subindo mesmo assim.
Esse episódio revela algo mais profundo sobre a cultura política da esquerda brasileira. O adversário não é combatido apenas no campo das ideias. Ele é frequentemente transformado em inimigo moral absoluto. Quando a realidade exige pragmatismo, o discurso precisa ser engolido. E engolido em silêncio.
No caso do Irã, o silêncio é quase literal. Uma ditadura desliga a internet. A tecnologia de um empresário demonizado mantém a comunicação funcionando. E o governo brasileiro segue navegando na rede como se nada disso fosse uma gigantesca ironia histórica.
No fim das contas, a cena parece saída de uma comédia política. Um regime autoritário impõe censura. Um bilionário acusado de autoritário quebra o bloqueio tecnológico. E um governo que o acusa de inimigo da democracia se beneficia discretamente de sua inovação.
Se dependesse apenas da retórica ideológica, talvez a embaixada brasileira estivesse hoje tentando enviar mensagens por pombo-correio digital.
Mas, felizmente para a diplomacia, os satélites não costumam obedecer discursos políticos.
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