
Na política, muitas decisões nascem nos gabinetes. Outras nascem no grito da rua. A nova lei sancionada pelo governador Rafael Fonteles parece pertencer claramente ao segundo caso.
O governo do Piauí anunciou que produtores rurais não pagarão pela água utilizada em atividades agropecuárias, inclusive aquela retirada de poços tubulares dentro de suas próprias propriedades. A medida foi apresentada como um gesto de segurança jurídica e de apoio ao setor produtivo.
Mas a cronologia dos fatos conta uma história um pouco diferente.
Nos últimos meses, produtores rurais de diversas regiões do estado começaram a relatar algo que, para eles, soava absurdo. O Estado instalou medidores nas tubulações que saem dos poços perfurados dentro das propriedades. Poços pagos pelo próprio produtor, muitas vezes com recursos próprios e com custos elevados de perfuração.
A reação foi imediata.
Vídeos começaram a circular nas redes sociais mostrando hidrômetros instalados em sistemas de captação de água subterrânea no meio do campo. Para muitos produtores, a situação parecia tão estranha quanto pagar pedágio para entrar na própria fazenda. A sensação era simples e direta: primeiro o produtor paga para perfurar o poço, depois paga para usar a água que encontrou em sua própria terra.
A insatisfação se espalhou como fogo em palha seca no sertão.
Diante da pressão crescente do setor agropecuário, o governo decidiu agir. O governador então gravou um vídeo de cerca de 45 segundos anunciando que sancionou uma lei deixando claro que não haverá cobrança pelo uso da água dos poços nas atividades agropecuárias.
No vídeo, o governador foi além. Afirmou que toda a controvérsia não passava de desinformação ou até mesmo de fake news.
É exatamente nesse ponto que surge a ferida política do episódio.
Se tudo era apenas fake news, como explicar a existência dos medidores? Os equipamentos que produtores filmaram em suas propriedades também seriam fruto da imaginação coletiva?
A narrativa oficial tenta tratar o episódio como um mal-entendido. Mas para muitos produtores rurais a história parece mais com um recuo estratégico depois que a reação do campo se tornou politicamente incômoda.
Na política, há decisões que são tomadas por convicção e outras que são tomadas por conveniência. A diferença entre uma e outra costuma aparecer no tempo da reação.
E neste caso o tempo fala por si.
Outro ponto que chamou atenção nas redes sociais foi o alcance da nova lei. A isenção anunciada se aplica às atividades agropecuárias. Isso significa que o benefício não necessariamente se estende a todos que vivem no campo.
Pequenos sitiantes, moradores rurais ou famílias que possuem poços para consumo doméstico continuam em uma zona cinzenta da legislação.
Foi exatamente isso que provocou questionamentos imediatos entre os internautas.
Um seguidor do governador escreveu: “Só agropecuário? Palhaçada”. Outro comentário perguntava por que a lei não contempla todos os moradores do meio rural.
A crítica revela uma contradição evidente. Se a água do subsolo pertence ao produtor rural quando utilizada na produção agrícola, por que ela deixaria de pertencer ao morador do campo que a utiliza para sobreviver?
A diferença entre um grande produtor e um pequeno sitiante, nesse caso, parece menos jurídica e mais política.
E a política raramente distribui benefícios de forma neutra.
Outro tema voltou à tona nas redes sociais junto com o debate da água: o ICMS sobre energia solar no estado. Muitos piauienses enxergam nesse imposto mais um exemplo de como o governo tenta ampliar arrecadação mesmo em áreas consideradas estratégicas.
Na percepção de parte da população, o governo parece agir como um cobrador que primeiro estica a corda até quase arrebentar e depois recua alguns centímetros para aliviar a tensão.
Funciona por um tempo. Mas cada esticada deixa uma marca.
No campo político, decisões que afetam diretamente o bolso do cidadão costumam ter memória longa. Especialmente no interior, onde cada medida do governo repercute rapidamente entre produtores, comerciantes e trabalhadores rurais.
O episódio da água dos poços pode até ter sido encerrado no plano jurídico com a nova lei. Mas no plano político ele dificilmente desaparecerá tão rápido.
Porque no fim das contas a pergunta que continua ecoando no campo piauiense é simples.
Se nunca houve cobrança, por que foi preciso criar uma lei para garantir que ela não existiria?
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