
O relatório final da CPMI do Rombo no INSS é daqueles documentos que não permitem muita ginástica interpretativa. São 4.340 páginas que, ao serem folheadas, repetem nomes, conexões e episódios como um eco incômodo. Entre eles aparece com insistência o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O herdeiro presidencial surge 118 vezes no relatório. Seu apelido, Lulinha, aparece outras 71 menções. Em qualquer investigação séria, quando um nome se repete dessa forma, não se trata de coincidência estatística. Parece mais um farol piscando no meio da noite.
E não deu outra. O texto oficial, do relator deputado Alfredo Gaspar (União/AL), foi rejeitado por 19 votos a 12 no início da madrugada, depois de mais de 16 horas de sessão. E muito bate boca.
O documento sustenta que o escândalo investigado dentro do Instituto Nacional do Seguro Social atingiu milhões de brasileiros. A apuração aponta prejuízos que recaem sobre mais de 6 milhões de aposentados e pensionistas. O relator, o deputado Alfredo Gaspar, pediu o indiciamento de Lulinha. A lógica usada pela oposição é simples e popular, quase folclórica. Se aparece pé de porco, rabo de porco, focinho de porco e jeito de porco, dificilmente se trata de uma girafa. É exatamente esse raciocínio que fez o relatório provocar tanto barulho político.
O texto também cita familiares e pessoas próximas ao círculo presidencial. O irmão de Lula, José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, aparece em diversas passagens. O sobrenome Luchsinger, ligado à lobista Roberta Luchsinger, surge 99 vezes. Para os investigadores, o conjunto de relações sugere uma rede de influência que orbitava em torno do escândalo. A engrenagem descrita no relatório lembra aqueles relógios antigos cheios de rodas dentadas. Uma peça gira e move outra. Quando todas funcionam juntas, o mecanismo inteiro passa a operar.
O problema é que o relógio político brasileiro tem um detalhe curioso. Muitas vezes ele funciona apenas até a porta do poder. A partir dali, o ponteiro costuma travar. Não por acaso o relatório acabou rejeitado. Para críticos do processo, foi montada uma espécie de força de contenção dentro e fora do Congresso para evitar que o documento avançasse como deveria. A sensação para parte da opinião pública é de que a investigação bateu na porta do cofre e alguém rapidamente trocou a fechadura.
O próprio Supremo Tribunal Federal aparece de forma recorrente no relatório. A sigla STF é citada 353 vezes, enquanto o termo habeas corpus aparece 68 vezes. Entre os ministros mencionados estão André Mendonça, Flávio Dino, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Na visão de críticos, a avalanche de decisões judiciais acabou criando uma espécie de escudo institucional para investigados convocados a depor.
No meio desse terremoto político, Lulinha acabou deixando o país e passou uma temporada na Espanha. Oficialmente não há reconhecimento de culpa. Mas para a oposição a pergunta permanece no ar como fumaça depois de um incêndio. Por que alguém citado tantas vezes em um relatório desse tamanho decide atravessar o oceano justamente no momento mais turbulento?
Para adversários do governo, um esquema dessa magnitude dificilmente prosperaria sem portas abertas dentro do poder. A engrenagem descrita no relatório lembra aquelas histórias em que o cofre do banco aparece arrombado, mas ninguém viu quem entrou. Só que neste caso há um detalhe incômodo. Segundo depoimentos citados na investigação, o principal operador do esquema, conhecido como Careca do INSS, referia-se a Lulinha como “o filho do homem”.
No Brasil político, escândalos muitas vezes terminam como pizza. A diferença é que, neste caso, a pizzaria parece ter aberto cedo. E o cardápio foi servido antes mesmo de a investigação terminar de esfriar.
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