
A investigação sobre o escândalo do Banco Master começa a entrar em uma fase decisiva. Depois de meses de revelações sobre o esquema financeiro que teria provocado um rombo estimado em R$ 50 bilhões, surge agora a pergunta que realmente interessa à Justiça e ao país. Onde foi parar o dinheiro.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro negocia um acordo de colaboração premiada que promete sacudir os bastidores da política e das instituições brasileiras. Nos depoimentos, ele deverá apresentar nomes de beneficiários espalhados pelos três Poderes da República. Mas, para os investigadores, revelar personagens do esquema não basta. É preciso seguir o rastro do dinheiro.
O relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o ministro André Mendonça, deixou claro que a delação só terá utilidade real se apontar o destino final dos recursos desviados. Segundo fontes do tribunal, Mendonça considera imprescindível que Vorcaro explique em detalhes o paradeiro do montante bilionário.
A cifra investigada não é trivial. Trata-se de um rombo estimado em mais de R$ 50 bilhões, valor que está sendo ressarcido aos investidores pelo Fundo Garantidor de Créditos. Em termos financeiros, é um dos maiores escândalos já registrados no sistema bancário brasileiro.
Para o ministro, identificar apenas os envolvidos não resolve o problema. O foco principal da investigação passa a ser a recuperação dos ativos. Ou seja, localizar os recursos e buscar sua devolução.
O interesse de Mendonça pelo tema não é apenas jurídico. O ministro estudou profundamente o assunto durante sua trajetória acadêmica. Em seu doutorado, ele desenvolveu a tese intitulada “Sistema de Princípios para a Recuperação de Ativos Procedentes da Corrupção”, trabalho premiado pela Universidade de Salamanca em 2019.
A experiência prática também reforça esse enfoque. Antes de chegar ao STF, Mendonça atuou na área de combate à corrupção e recuperação de patrimônio público, quando foi diretor do Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa da Procuradoria-Geral da União.
Nos primeiros depoimentos prestados até agora, Vorcaro ainda não revelou onde estão os recursos. O ex-banqueiro argumenta que precisa ter acesso completo aos dados da liquidação do banco para reconstruir a movimentação financeira.
A liquidação do Banco Master está sendo conduzida por um interventor nomeado pelo Banco Central do Brasil. Levantamentos preliminares já identificaram ao menos R$ 4,8 bilhões em bens e fundos de investimento ligados ao ex-banqueiro que podem ter sido movimentados antes da intervenção.
Mesmo assim, a distância entre esse valor e os R$ 50 bilhões investigados levanta suspeitas ainda maiores.
A pergunta que ecoa nos bastidores da investigação é inevitável. O que foi feito com esse dinheiro.
Os investigadores querem saber se os recursos foram convertidos em imóveis, fazendas, participações empresariais, resorts ou ativos financeiros no exterior. Outra hipótese é que parte significativa tenha sido transferida para paraísos fiscais, prática comum em grandes esquemas financeiros internacionais.
Além de revelar o caminho do dinheiro, Vorcaro enfrenta outro desafio decisivo para sua própria defesa. Ele tenta demonstrar que não era o líder do esquema.
No voto em que manteve sua prisão, o ministro André Mendonça apontou o ex-banqueiro como figura central da organização investigada. Caso não consiga desmontar essa interpretação, Vorcaro poderá perder benefícios relevantes do acordo de colaboração.
Entre esses benefícios está justamente a possibilidade de não ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República.
Nos bastidores do Judiciário, cresce a percepção de que o caso Master pode revelar muito mais do que um escândalo financeiro. A depender do conteúdo da delação, o episódio pode expor uma rede de relações políticas, empresariais e institucionais construída ao redor de bilhões de reais desaparecidos.
No fim das contas, a investigação caminha para o ponto que realmente separa escândalos passageiros de crimes históricos. Descobrir quem recebeu, quanto recebeu e onde foi parar cada centavo de um dos maiores rombos financeiros já registrados no Brasil.
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