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Justiça JUDICIÁRIO EM CRISE

Sim. Cármen Lúcia disse: “Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja independente, imparcial, ético e honesto”

Declaração é real, mas ganha peso em meio à crise de credibilidade do Judiciário e levanta questionamentos sobre imparcialidade dentro do próprio STF

20/03/2026 às 14h01
Por: Douglas Ferreira
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Ministra Cármem Lúcia - Foto: Reprodução
Ministra Cármem Lúcia - Foto: Reprodução

Cármen Lúcia, a frase que ecoa e o silêncio que incomoda

A ministra Cármen Lúcia não improvisou. Ao afirmar, em evento público, que “Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja independente, imparcial, ético e honesto”, ela sintetizou, com precisão cirúrgica, aquilo que deveria ser óbvio, mas que já não soa como consenso no Brasil de hoje.

A declaração, feita em ambiente acadêmico, não foi um desabafo isolado. Foi uma reafirmação dos pilares clássicos do Estado de Direito. Independência, imparcialidade, ética e honestidade não são qualidades opcionais. São requisitos mínimos. O problema é que, quando o óbvio precisa ser reafirmado, algo está fora do lugar.

A fala repercutiu imediatamente entre juristas, parlamentares e setores da sociedade civil. Muitos viram ali um gesto de responsabilidade institucional. Outros enxergaram algo mais profundo. Um reconhecimento indireto de que a confiança no Judiciário atravessa um momento delicado.

E atravessa mesmo. O Supremo Tribunal Federal, do qual a própria ministra faz parte, vive uma fase de questionamentos públicos incomuns. A Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, passou a pressionar pelo encerramento do chamado inquérito das fake news, aberto em 2019 e ainda em curso. Setores organizados da sociedade já não escondem o desconforto com a duração, o alcance e os métodos desse procedimento.

Nesse contexto, a frase de Cármen Lúcia ganha outra dimensão. Ela não fala apenas como cidadã hipotética que teme um julgamento injusto. Ela fala como integrante de uma Corte que hoje é alvo de críticas justamente por suposta falta de imparcialidade em decisões recentes.

A pergunta que se impõe é inevitável. A quem se dirige essa fala? É um recado interno, voltado aos próprios colegas do STF? É uma mensagem ao Judiciário como um todo? Ou é uma tentativa de reconectar a instituição com a sociedade, lembrando princípios que parecem, para muitos, estar sendo relativizados?

Não há resposta explícita. Mas há contexto. E o contexto é de desgaste.

Pesquisas recentes de opinião indicam queda na confiança popular no Supremo. O tribunal, que já foi visto como guardião incontestável da Constituição, hoje divide opiniões de forma intensa. Decisões monocráticas, investigações conduzidas dentro da própria Corte e a atuação de ministros em temas politicamente sensíveis alimentam esse cenário.

Some-se a isso o fato de que nomes importantes do Judiciário têm sido citados em investigações recentes, como no chamado Caso Master, ainda cercado de apurações e versões conflitantes. Mesmo sem conclusões definitivas, o simples surgimento dessas menções já é suficiente para ampliar a desconfiança.

É nesse ambiente que a fala da ministra se torna mais do que uma defesa abstrata da ética. Ela passa a ser lida como um sintoma. Um sinal de que dentro da própria estrutura há percepção de risco reputacional.

Ao enfatizar que não aceitaria ser julgada por alguém sem independência ou honestidade, Cármen Lúcia reforça um ideal. Mas, ao mesmo tempo, expõe um contraste. Se tudo estivesse plenamente alinhado a esses valores, talvez não fosse necessário reafirmá-los com tanta ênfase.

Há também um aspecto político inevitável. Em tempos de polarização, qualquer declaração de membro do STF é imediatamente apropriada por diferentes narrativas. Para uns, a ministra defende o tribunal. Para outros, ela reconhece, ainda que indiretamente, falhas que já não podem ser ignoradas.

No fim, o impacto da fala está menos no que foi dito e mais no momento em que foi dito. A frase é correta. Irretocável, até. Mas ela ecoa em um ambiente onde a confiança já não é plena.

E quando a mais alta Corte do país precisa lembrar que juízes devem ser honestos, independentes e imparciais, o problema já deixou de ser apenas jurídico. Tornou-se institucional.

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