
O Irã não é um país árabe. É persa. Essa distinção, muitas vezes ignorada no debate ocidental, não é detalhe geográfico: é identidade histórica. Antes de se tornar sinônimo de teocracia, turbantes e polícia de costumes, o país foi herdeiro direto de uma das civilizações mais antigas e sofisticadas do mundo.
É nesse ponto que ressurge o nome de Reza Pahlavi, de 65 anos, filho primogênito do último monarca iraniano, Mohammad Reza Pahlavi. Autointitulado príncipe, ele vive nos Estados Unidos desde 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou seu pai e instaurou o regime dos aiatolás.
Agora, diante de ataques recentes conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos ligados ao regime iraniano, Pahlavi declarou apoio às ações e se colocou à disposição para liderar uma transição política no país.
“A ajuda que o presidente dos Estados Unidos prometeu ao bravo povo iraniano acaba de chegar. Espero estar ao seu lado o mais breve possível para que, juntos, possamos retomar o Irã e reconstruí-lo”, afirmou em mensagem gravada em persa.
A pergunta inevitável é: quem é esse homem que reivindica a herança de um trono derrubado há mais de quatro décadas?
Reza Pahlavi deixou o Irã ainda jovem, quando a Revolução Islâmica de 1979 varreu a monarquia e levou ao poder o aiatolá Ruhollah Khomeini. Desde então, vive nos Estados Unidos, onde atua como ativista político e mantém presença constante em fóruns internacionais, defendendo o fim da República Islâmica.
Ele não governa território algum, não comanda forças armadas e não detém poder formal. O que possui é símbolo. E, em política, símbolos podem ser mais duradouros do que exércitos.
Sob o comando do Xá (termo persa para “Rei dos Reis”), o Irã projetava uma imagem de modernização acelerada. Mulheres frequentavam universidades, ocupavam espaços públicos sem véu obrigatório, e o país era visto como uma das nações mais prósperas do Oriente Médio.
Mas a narrativa não é monocromática. O regime do Xá também foi autoritário, marcado por repressão política e prisões de opositores. A modernização coexistia com centralização de poder.
Ainda assim, para muitos iranianos na diáspora, o período anterior a 1979 representa um Irã aberto ao mundo, economicamente vibrante e culturalmente plural. A Revolução Islâmica prometeu justiça social, mas entregou uma teocracia baseada na sharia, na vigilância moral e na concentração de poder nas mãos do Líder Supremo.
Após a consolidação do regime, primeiro com Khomeini e depois com Ali Khamenei, o país passou a viver sob rígido controle religioso e político, com severas restrições às liberdades civis.
A comparação é inevitável: de um lado, um país que já foi referência cultural milenar, berço de impérios como o de Ciro e Dario; de outro, uma estrutura política moldada por interpretações religiosas rígidas que moldam vestuário, comportamento e até pensamento.
Reza Pahlavi se apresenta como ponte entre essas duas narrativas. Ele afirma não defender necessariamente o retorno automático da monarquia, mas sim um processo de transição que permita ao povo decidir, por meio de mecanismos democráticos, o futuro do país.
Para seus apoiadores, ele simboliza a Pérsia sufocada pela teocracia. Para críticos, representa um passado igualmente autoritário.
Dentro do Irã, o apoio é difícil de medir com precisão, dada a repressão interna. Na diáspora iraniana, especialmente na Europa e na América do Norte, Pahlavi mantém seguidores que veem nele uma alternativa organizada ao regime dos aiatolás.
Ele atua como figura política no exílio, concede entrevistas, participa de conferências e mantém redes de articulação com opositores do regime. Não é um príncipe de palácio, mas de estúdio e diplomacia internacional.
A morte de líderes históricos do regime e o aumento da pressão externa reacendem o debate sobre sucessão e estabilidade. Pahlavi tenta ocupar esse espaço discursivo.
Ele não é comandante militar, mas narrador de uma memória nacional. Não governa um território, mas reivindica uma identidade.
O Irã é persa, não árabe. Foi império antes de ser república islâmica. Foi monarquia antes de ser teocracia. E está no centro de uma disputa que não é apenas geopolítica, mas civilizacional.
Reza Pahlavi aposta que, se houver ruptura, seu sobrenome deixará de ser lembrança e voltará a ser projeto. A história dirá se ele é herdeiro de um trono perdido ou apenas guardião de uma memória que o tempo transformou em símbolo.
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