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Economia ESQUEMA PONZI

A República da “Engolideira”

O brasileiro ama juros altos, dinheiro fácil e a ilusão de que desta vez vai dar certo. Nunca dá.

28/02/2026 às 10h48
Por: Douglas Ferreira
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O abismo financeiro da G44 Brasil - Foto: Imagem gerada por IA
O abismo financeiro da G44 Brasil - Foto: Imagem gerada por IA

O brasileiro tem espírito aventureiro. Não é o espírito de quem cruza oceanos em caravelas, mas de quem cruza grupos de WhatsApp atrás de “oportunidade imperdível”. Aqui, todo mundo conhece alguém que “entrou no começo” e “já tirou o capital”. E todo mundo acha que será esse alguém.

Mas quase sempre termina sendo o outro: o que entrou no meio, no fim ou no fundo do poço.

Os golpes financeiros no Brasil nunca foram tão recorrentes. Mudam os nomes, mudam os aplicativos, mudam os ternos dos palestrantes motivacionais. Mas a essência é a mesma. É a velha pirâmide financeira, aquela que promete 10% ao mês com a naturalidade de quem promete chuva no inverno.

A pirâmide gourmet

Os esquemas se sofisticam. Ganham PowerPoint, criptomoeda, contrato jurídico com assinatura digital e até mina de esmeralda.

Podem até vestir terno italiano, falar inglês técnico e posar de banqueiro moderno, ao estilo Daniel Vorcaro e seu Banco Master. Mas, no fim, continuam sendo a mesma coisa: uma engolideira.

E o brasileiro? Ah, o brasileiro olha para a boca do monstro e pensa: “Dessa vez eu saio antes.”

Não sai.

A tradição do Cariri ao Centro-Oeste

Quem é do Nordeste lembra do lendário Senhor Antônio Nogueira, o golpista que encantou o Cariri cearense com promessas de rentabilidade mágica. Foi o maior golpe financeiro já suportado pelo sertão. Muita gente perdeu casa, carro, economias de uma vida inteira.

O roteiro agora se repete no Centro-Oeste.

Em Goiás, mais uma engolideira foi desmontada. E o enredo é tão previsível que chega a ser didático: juros altos, dinheiro fácil e uma garantia exótica. Desta vez, esmeraldas.

Sim, pedras preciosas.

No fim, quem acreditou recebeu pedra mesmo. Daquelas de carregar na cabeça.

A mina cenográfica

Segundo denúncia apresentada à 4ª Vara Criminal de Brasília pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, a empresa G44 Brasil, com braço operacional A&Z Liberty, estruturou um esquema bilionário lastreado numa suposta mineradora de esmeraldas em Campos Verdes, Goiás.

A promessa? Lucros mensais de até 11%.

Onze por cento ao mês. Em um país onde banco cobra juros astronômicos, mas paga quase nada ao poupador, surge alguém oferecendo rentabilidade de cassino suíço com segurança de cofre inglês. E o brasileiro acredita.

Investidores eram levados à cidade para conhecer a “mina”. Eram recebidos pelos líderes do esquema, Saleem Ahmed Zaheer e Joselita de Brito Escobar. Pedras eram exibidas, distribuídas como brindes, acompanhadas de discursos sobre lastro real e riqueza subterrânea.

A encenação era completa. Pessoas circulavam pela cidade com as pedras e eram abordadas por terceiros fingindo interesse na compra. Teatro puro. Mercado fictício. Valorização artificial.

Uma Broadway mineral no meio do Cerrado.

Quando o dinheiro acabou, vieram as pedras

Como todo esquema Ponzi, o modelo dependia da entrada constante de novos investidores. Enquanto entrava dinheiro novo, os antigos recebiam — e viravam propagandistas involuntários.

Quando o fluxo secou, os saques começaram a atrasar.

E então veio a solução criativa: pagamento em esmeraldas.

As pedras, segundo o Ministério Público, não tinham valor comercial significativo. Mesmo assim, vinham acompanhadas de laudos e avaliações suspeitas. As vítimas eram induzidas a aderir a um sistema chamado BackOffice e pagar taxas de 5% a 10% para receber os “créditos” em pedras.

Ou seja, o investidor perdia dinheiro e ainda pagava taxa para receber prejuízo em formato mineral.

O gemólogo que emitia laudos acabou preso por falsificação de documentos ligados à mineração. A mina, ao que tudo indica, era mais cenográfica que produtiva.

O mecanismo da ilusão

Os contratos eram firmados como Sociedade em Conta de Participação. O investidor figurava como “sócio oculto”. A empresa, como sócia ostensiva. No papel, parecia sofisticado. Na prática, era uma pirâmide com CNPJ.

Os rendimentos prometidos variavam entre 9% e 11,5% ao mês. Parte dos pagamentos era feita por meio de um cartão pré-pago chamado Zen Card, criando aparência de normalidade.

Enquanto isso, segundo a investigação, recursos de novos investidores pagavam os antigos.

Clássico. Elementar. Didático.

Quando tudo ruiu, valores foram pulverizados entre contas, empresas, criptoativos e laranjas. A velha estratégia de embaralhar o rastro.

Um bilhão evaporado

A organização teria arrecadado pelo menos R$ 600 milhões ao longo de quatro anos. O prejuízo estimado às vítimas supera R$ 1 bilhão.

Gente do Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí.

Sim, maranhenses e piauienses também entraram na onda. O sonho do dinheiro fácil não respeita fronteira estadual.

O Ministério Público denunciou os investigados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. O crime específico de pirâmide financeira não entrou por questão de prescrição, mas isso não impede a responsabilização pelos demais delitos.

A lição que nunca vira aprendizado

O mais curioso é que o brasileiro conhece a história. Já viu esse filme. Já leu essa manchete. Já ouviu o discurso.

Mas acredita que, desta vez, será diferente.

A ganância cega. O juro alto encanta. A promessa de riqueza rápida seduz. E a lógica básica é ignorada: se fosse tão bom assim, não precisaria de você para funcionar.

No fim, parte dos “espertos” termina na cadeia. A outra parte amarga prejuízo na surdina, evita comentar o assunto no almoço de família e aprende, por alguns meses.

Até surgir a próxima oportunidade imperdível.

Porque, no Brasil, a pirâmide pode mudar de nome, virar banco, mineradora, fintech ou fundo exclusivo.

Mas continua sendo pirâmide.

E quem insiste em subir nela quase sempre desce pela lateral, rolando. Recebe o pagamento real de que costuma acreditar nos Rolando Lero da vida.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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