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Irmãos Brazão são condenados a mais de 76 anos pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes

STF condena irmãos Brazão como mandantes da execução de Marielle Franco e Anderson Gomespor

25/02/2026 às 16h51 Atualizada em 25/02/2026 às 17h09
Por: Douglas Ferreira
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Irmãos Domingos e Chiquinho Brazão - Foto: Reprodução
Irmãos Domingos e Chiquinho Brazão - Foto: Reprodução

A condenação dos irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão a 76 anos e 3 meses de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal encerra um dos capítulos mais sombrios da história política recente do país. O assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes não foi apenas um crime brutal, foi um ataque direto à representação política, à democracia e ao Estado de Direito. Um crime executado em 14 de março de 2018 e chocou o país. 

O que mais pesou contra os condenados foi o conjunto articulado de provas que apontou mando estruturado dentro de organização criminosa armada. Não se tratou de ato impulsivo, mas de decisão calculada, inserida num contexto de disputa por poder territorial, influência e negócios ilícitos. A investigação demonstrou planejamento, articulação e tentativa posterior de obstrução.

A motivação reconhecida pelo relator, ministro Alexandre de Moraes, foi política. Marielle tornou-se obstáculo concreto a interesses ligados à grilagem de terras e à atuação de milícias. Era, nas palavras do próprio voto, “uma pedra no caminho”. Em ambientes onde poder e ilegalidade caminham juntos, pedras são removidas, não contornadas.

O julgamento também incorporou o elemento de violência política de gênero. Marielle não era apenas uma vereadora combativa, era uma mulher negra enfrentando estruturas tradicionalmente masculinas e violentas. Isso ampliou o simbolismo do crime e a sua repercussão internacional. O recado que se pretendia dar era de intimidação, mas o efeito foi o oposto, tornou-se um símbolo global.

Durante anos, o debate público foi contaminado por narrativas ideológicas. Parte do espectro político tentou enquadrar o crime como produto automático de extremismo ideológico. A realidade revelada pelo processo mostrou algo mais complexo e, talvez, mais incômodo, redes locais de poder, interesses econômicos ilegais e conexões que atravessam partidos e rótulos.

Os irmãos condenados não confessaram. A condenação decorreu da convergência de delações, quebras de sigilo, cruzamento de dados e provas testemunhais. O Supremo considerou que o encadeamento probatório era robusto o suficiente para sustentar a responsabilização por organização criminosa armada, duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio.

A dosimetria elevada não foi arbitrária. A soma das qualificadoras, motivo torpe, impossibilidade de defesa das vítimas e o contexto de organização criminosa, empurrou a pena para patamar raramente visto no país. Não foi sentença simbólica, foi matemática penal aplicada com rigor.

Os condenados já estavam presos preventivamente e o regime fixado é o fechado. Eventual progressão dependerá de requisitos legais e do trânsito em julgado. No momento, a decisão impõe encarceramento efetivo e perda de cargos, patentes e direitos políticos.

O STF também determinou indenizações que somam R$ 7 milhões às famílias. Nenhuma cifra recompõe vidas interrompidas, mas a reparação financeira reconhece oficialmente o dano irreparável causado pelo Estado ao não impedir o crime e pelo crime em si.

A ministra Cármen Lúcia deixou transparecer o peso emocional do caso ao questionar quantas “Marielles” o Brasil ainda permitiria perder. A frase ecoa porque toca no ponto central, o país convive historicamente com violência política seletiva e com estruturas paralelas de poder.

A condenação desmonta simplificações fáceis. O caso não se resolve numa disputa binária entre esquerda e direita. Ele revela como interesses locais, milícias e redes de influência podem atravessar ideologias e usar a política como instrumento de proteção. Quando o crime se infiltra nas instituições, não veste uniforme ideológico, veste terno.

O veredito representa avanço institucional, mas também expõe uma ferida estrutural. A morte de Marielle não foi acidente histórico, foi sintoma de um sistema onde poder territorial, armas e política se cruzam perigosamente. A condenação é resposta tardia, porém firme. Resta saber se será exceção ou marco de mudança real na relação entre crime organizado e poder público no Brasil.

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