
A Quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma, período de quarenta dias que antecede a Páscoa no calendário cristão e convida os fiéis à reflexão, ao jejum e à penitência. Para além do simbolismo religioso, a data também provoca um fenômeno bastante concreto: o aquecimento do comércio de pescados e frutos do mar.
Na manhã desta quarta-feira (18), o Mercado do Peixe registrou intensa movimentação. Logo nas primeiras horas do dia, consumidores disputavam espaço entre bancas abastecidas de peixes de água doce e salgada, camarões e crustáceos variados. A tradição cristã recomenda a abstinência de carne vermelha na Quarta-feira de Cinzas, prática que se estende, para muitos, às sextas-feiras da Quaresma, e embora não haja determinação bíblica explícita que imponha o consumo de pescado, o costume atravessa gerações.
“Esta é uma tradição da família que já vem da minha avó”, conta Dona Maria das Dores, 72 anos, enquanto escolhe tilápias frescas. Ao lado dela, Seu Francisco Augusto César reforça o ritual doméstico: “Na Quarta-feira de Cinzas não deixo entrar carnes na minha casa, só peixe, camarão e outros crustáceos”.
A prática tem raízes na disciplina da Igreja Católica, que historicamente associou a abstinência de carne vermelha à penitência. O peixe, por sua vez, tornou-se alternativa simbólica e culturalmente aceita, mais do que uma imposição doutrinária, uma tradição incorporada ao cotidiano.
No Mercado do Peixe, a diversidade chama atenção. Branquinho, piratinga, piau, curimatã, pirarucu e piabas dividem espaço nas bancas. Ainda assim, a preferência do teresinense é clara, a tilápia domina as vendas.
O preço médio, em torno de R$ 22 o quilo, ajuda a explicar a procura, mas não é o único fator. “Tilápia eu consumo de todo jeito, assada inteira no forno, cozida em rodelas ou mesmo grelhada. E o filé eu faço empanado ou no molho branco”, detalha Dona Maria Auxiliadora, enquanto negocia a compra.
Os comerciantes se prepararam para o aumento da demanda. Segundo estimativas dos próprios vendedores, as vendas neste início de Quaresma já apresentam crescimento de aproximadamente 40% em comparação com períodos regulares. E, mais uma vez, a tilápia puxou a alta.
Além do pescado e dos frutos do mar, a Quaresma desencadeia um verdadeiro efeito cascata no comércio. O consumidor que vai ao mercado em busca da tilápia ou do camarão dificilmente sai apenas com o item principal. Cresce também a procura por leite de coco, ovos, óleo, temperos específicos para peixe, cheiro-verde, pimentões, tomates e outras verduras que compõem o prato.
Supermercados e mercearias sentem o reflexo direto desse comportamento sazonal, ampliando estoques e organizando promoções voltadas ao período. Mais do que uma tradição religiosa, a Quaresma consolida um ciclo de consumo que movimenta diferentes setores, do pequeno produtor ao varejo urbano, impulsionando as vendas e aquecendo a economia local.
A cena revela uma interseção curiosa entre espiritualidade e mercado. O gesto de abstinência, que simboliza sacrifício e reflexão, converte-se também em vetor econômico. A cada ano, a Quaresma reafirma a força das tradições culturais na dinâmica comercial da cidade.
É um ciclo que se repete, a fé orienta o hábito, o hábito move o consumo, o consumo impulsiona o comércio. No Mercado do Peixe, a religião não é proclamada em púlpitos, mas se manifesta nas cestas cheias, nas filas diante das balanças e no tilintar das moedas.
Entre a devoção e a panela, a Quaresma segue moldando comportamentos, e movimentando cifras.
DEGRADAÇÃO TOTAL? Desordenamento moral?
PLANEJAMENTO Planejar a vida também é pensar no amanhã
ADUTORA ROMPIDA Águas de Teresina deixa bairros inteiros sem água e revolta moradores neste sábado
DISCRIMINAÇÃO Teresina fica fora de pacote bilionário do Governo Federal para mobilidade urbana
TERESINA Grupo Hot Sat promove em Teresina evento fechado para empresários e líderes de empresas
TERESINA Trabalhador morre soterrado em tanque de decantação e operação dos Bombeiros dura quase 9 horas em Teresina Mín. 23° Máx. 32°