
O discurso de unidade dentro do Partido dos Trabalhadores no Piauí começa a apresentar rachaduras visíveis. O que parte da base aliada trata como “acordo consolidado” para 2026 é visto por setores do próprio PT como precipitação política. E quem vocaliza essa insatisfação não é um opositor, mas um deputado federal da legenda.
Flávio Nogueira classificou como “decisão precipitada” o fechamento antecipado da chapa governista para as eleições de 2026. A crítica surge após articulações envolvendo o ministro Wellington Dias sobre a possibilidade de o PT lançar candidatura própria ao Senado.
“Eu acho que o fechamento da chapa foi precipitado. Esse trato vem desde a eleição de 2022 e agora querem consolidar isso”, afirmou o parlamentar.
A declaração não é trivial. Ela revela que o suposto consenso em torno da composição majoritária está longe de ser absoluto dentro do próprio partido. Nos bastidores, lideranças da base tratam como praticamente definida a manutenção dos nomes do senador Marcelo Castro (MDB) e do deputado federal Júlio César (PSD) para as duas vagas ao Senado, com Washington Bandeira (PT) indicado para a vice-governadoria.
O governador Rafael Fonteles tem reiterado confiança no entendimento firmado entre os partidos da base e sinalizado alinhamento com a direção nacional da legenda, citando os dirigentes Fábio Novo e Edinho Silva como responsáveis pela condução do acordo. Segundo ele, as pré-candidaturas contam com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ser formalizado dentro do calendário eleitoral.
O presidente municipal do PT, João Pereira, foi ainda mais enfático ao afirmar que “a chapa está fechada” e que “nada vai mudar”.
Mas a fala de Flávio Nogueira sugere que, internamente, nem todos concordam com essa narrativa de unanimidade. O que está em jogo vai além de nomes. Trata-se de espaço político, protagonismo partidário e estratégia de poder.
Desde 2022, o PT abriu mão das duas vagas ao Senado em favor de aliados estratégicos. Agora, parte da militância e de quadros históricos questiona se o partido, sendo o principal fiador do projeto estadual e nacional, deve novamente abdicar de disputar uma das cadeiras. A eventual candidatura própria ao Senado representaria não apenas ambição eleitoral, mas afirmação de identidade.
A antecipação do debate também levanta outro ponto sensível. Definir composição majoritária com tanta antecedência pode reduzir margem de negociação futura e engessar o cenário político. Ao mesmo tempo, a consolidação precoce busca transmitir estabilidade e previsibilidade à base aliada.
O embate, portanto, não é apenas sobre 2026. É sobre método e comando. Quem decide? A direção nacional? O governador? As lideranças locais? Ou o conjunto da militância?
A manifestação pública de Flávio Nogueira indica que o dissenso deixou os corredores internos e ganhou luz. Em política, quando divergências passam do sussurro ao microfone, é sinal de que a tensão já ultrapassou o estágio silencioso.
Se o acordo será mantido ou revisto, ainda é cedo para afirmar. Mas uma coisa é clara: o projeto de poder petista no Piauí, tratado como consolidado por alguns, ainda enfrenta resistências dentro de casa.
E, como a própria história do PT demonstra, as disputas internas costumam ser tão intensas quanto as travadas contra adversários externos.
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