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A teia da agiotagem colombiana no Piauí: quando o crédito ilegal vira sentença de morte

Rede criminosa conhecida da polícia se espalha pelo interior, impõe juros abusivos, ameaça famílias e empurra devedores ao limite, enquanto cobradores morrem e líderes seguem nas sombras

14/02/2026 às 05h00 Atualizada em 14/02/2026 às 11h15
Por: Douglas Ferreira
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Há uma lista de agiotas colombianos foragidos - Foto: Reprodução
Há uma lista de agiotas colombianos foragidos - Foto: Reprodução

A agiotagem sempre foi um velho conhecido das páginas policiais e do imaginário popular. Mas o que antes parecia um problema pontual, quase folclórico, ganhou contornos industriais, empresariais e, sobretudo, transnacionais no Piauí. A chamada agiotagem colombiana deixou de ser um sussurro nos bastidores do comércio de Teresina para se tornar um rugido que ecoa pelo interior do estado, espalhando medo, dívidas impagáveis e morte.

Que a prática corre solta na capital, isso ninguém nunca escondeu. Que existe uma rede de estrangeiros, majoritariamente colombianos, atuando no submundo do comércio informal, também não é novidade. O que assusta, de fato, é a dimensão que essa engrenagem criminosa alcançou: organizada como franquia, dividida por territórios, com cobradores, gerentes, operadores financeiros e líderes invisíveis, possivelmente fora do país. É o capitalismo selvagem aplicado ao crime, sem CNPJ, mas com juros que fariam qualquer banco corar de vergonha.

O avanço dessa teia lembra areia movediça: o pequeno comerciante entra achando que pisa em terreno firme, mas afunda a cada prestação. Juros diários que variam de 5% a 20% transformam uma dívida pequena em uma sentença perpétua. Não é crédito, é cárcere financeiro. Não é empréstimo, é extorsão parcelada. Quando o devedor percebe, já não deve dinheiro , deve a própria tranquilidade, a família e, em casos extremos, a vida.

O resultado desse sistema predatório começa a aparecer de forma brutal. Em menos de um ano, ao menos dois agiotas colombianos foram mortos durante cobranças no Piauí. O caso mais recente ocorreu em Miguel Alves, no Baixo Parnaíba, onde Alex Sandro de Araújo foi assassinado a tiros ao tentar receber uma dívida. Antes dele, em União, Brayan Andreas Quintero García teve o mesmo destino, morto após uma discussão ligada à cobrança de valores. O padrão se repete como um roteiro trágico: cobrança, ameaça, confronto, bala. O desfecho é sempre o mesmo, alguém não volta para casa.

Essas mortes levantam uma pergunta incômoda: os mortos eram os verdadeiros donos do negócio ou apenas a linha de frente descartável de uma estrutura maior? Tudo indica que muitos são apenas cobradores, peças substituíveis de uma engrenagem bem mais ampla. Se for assim, a morte deles não desmonta o esquema, apenas troca os operadores.

O mais perturbador é que essa realidade não é desconhecida das autoridades. A própria polícia admite que a atuação desses grupos ocorre há mais de uma década em Teresina. Hoje, é raro encontrar um pequeno lojista no Centro ou no Shopping da Cidade que não tenha, direta ou indiretamente, passado pelas mãos dessa agiotagem estrangeira. Se todos sabem, por que a sensação é de que o combate sempre chega atrasado, quando o estrago já está feito?

A Operação Macondo escancarou o que muitos fingiam não ver. Segundo as investigações, trata-se de uma organização criminosa estruturada, com divisão territorial, rotatividade de cobradores, envio de dinheiro para líderes hierarquicamente superiores e até cooptação de pessoas ainda na Colômbia. É uma multinacional do crime operando no varejo da miséria. A polícia prendeu parte do grupo, apreendeu valores irrisórios perto do dano causado e admite que há foragidos, e líderes, fora do alcance imediato.

Enquanto isso, o efeito colateral mais cruel recai sobre quem menos tem defesa: comerciantes informais, trabalhadores autônomos, gente sem acesso ao crédito bancário. Para esses, a agiotagem vira a única porta aberta,uma porta que, ao se fechar, tranca tudo por dentro. Houve caso de suicídio. Houve famílias aterrorizadas. Houve vidas destruídas sem manchete.

A pergunta que fica não é apenas por que a agiotagem corre solta, mas por quanto tempo ainda será tolerada como um “mal inevitável”. Quando o Estado não ocupa o espaço do crédito legal, o crime ocupa. Quando a repressão é lenta, a violência acelera. E quando o silêncio impera, a bala fala.

O Piauí não enfrenta apenas um problema policial. Enfrenta um problema social, econômico e institucional. A agiotagem colombiana não é um detalhe marginal — é um sintoma grave de um sistema que permite que a extorsão vire negócio e que o desespero vire mercado. Enquanto os líderes permanecem invisíveis e os cobradores continuam rodando como peças de reposição, a próxima cobrança pode terminar, de novo, em sangue. E aí já não será surpresa. Será apenas mais um capítulo de uma tragédia anunciada.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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