
Durante mais de cinco décadas, ele esteve presente em ruas, praças, praias e rodoviárias de todo o país. O orelhão, oficialmente chamado de Telefone de Uso Público (TUP), foi inaugurado no Brasil em 20 de janeiro de 1972, na Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro, e rapidamente se espalhou por São Paulo e pelas demais capitais. Muito mais que um telefone, tornou-se um símbolo da vida urbana brasileira.
O design icônico do orelhão foi criado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira. Ao contrário do que muitos imaginam, o formato não foi inspirado na orelha humana, mas sim em um ovo, escolhido por suas propriedades acústicas e estruturais. Produzido em fibra de vidro, o modelo garantia isolamento sonoro razoável, entre 70 e 90 decibéis, além de proteger o usuário do sol e da chuva. O conjunto de três ou mais aparelhos recebeu o curioso apelido de “tulipa”.
Ao longo dos anos, os orelhões testemunharam momentos históricos do país. Por eles passaram conversas sobre a ditadura militar, a anistia, crises econômicas, hiperinflação, impeachments, o Plano Real e até comemorações de Copas do Mundo. Escritores como Carlos Drummond de Andrade chegaram a registrar em crônicas o impacto do telefone público na vida cotidiana, ao permitir comunicação imediata sem depender de bares ou farmácias.
Apesar de sua importância cultural, os orelhões não resistiram ao avanço da tecnologia. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em 2025, 88,9% da população brasileira com mais de 10 anos já possuía telefone celular, em um país com mais de 500 milhões de aparelhos ativos. Diante do uso cada vez mais raro e dos altos custos de manutenção, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) determinou a retirada gradual dos orelhões, com prazo final previsto para 2028.
Nos anos 1990, o Brasil chegou a ter cerca de 1,5 milhão de orelhões. Hoje, restam pouco mais de 30 mil, concentrados principalmente em áreas onde a cobertura de telefonia móvel ainda é limitada. Entre 2018 e 2025, as operadoras gastaram aproximadamente R$ 1,69 bilhão para manter esses equipamentos, muitas vezes alvos de vandalismo e praticamente sem uso.
Com o fim próximo, os orelhões começam a migrar da paisagem urbana para o campo da memória. Alguns já viraram peças de museu, objetos de arte, como na Call Parade, realizada em São Paulo em 2012, ou itens de colecionador, vendidos por valores que podem ultrapassar R$ 2 mil. As antigas fichas telefônicas, que originaram a expressão “caiu a ficha”, também ganharam valor nostálgico.

O desaparecimento dos orelhões marca mais do que o fim de um equipamento público. Representa o encerramento de uma época em que a comunicação exigia sair de casa, enfrentar fila, negociar urgências e respeitar o silêncio alheio. Entre perdas e ganhos da era digital, fica a curiosidade e a memória de um objeto que ajudou a conectar o Brasil por mais de meio século.
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