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Economia LAVAGEM DE DINHEIRO

Banco Master: quando a aparência de legalidade esconde o cheiro do crime

PF investiga R$ 2,8 bilhões em transações que ligam o banco a empresa usada pelo PCC e expõe falhas graves de controle no sistema financeiro

02/02/2026 às 10h22 Atualizada em 02/02/2026 às 19h19
Por: Douglas Ferreira
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Banco Master no olho do furacão - Foto: Reprodução
Banco Master no olho do furacão - Foto: Reprodução

Há esquemas que resistem a uma análise superficial. Outros, porém, seguem a máxima popular: quanto mais se mexe, mais fede. O caso do Banco Master parece caminhar rapidamente para essa segunda categoria. O que começou como investigação pontual sobre operações de câmbio virou um emaranhado de relações obscuras, cifras bilionárias e suspeitas que alcançam facções criminosas, empresas de criptoativos e falhas sistêmicas de bancos e reguladores.

A Polícia Federal apura transações de R$ 2,8 bilhões realizadas entre dezembro de 2018 e abril de 2021 envolvendo o então Banco Máxima (atual Banco Master) e a empresa One World Services (OWS), apontada como instrumento de lavagem de dinheiro do PCC — e também ligada a fluxos financeiros relacionados ao Hezbollah, segundo relatórios policiais.

O que levou a PF a essa linha de investigação

A suspeita não surgiu do nada. A OWS operava no mercado OTC de criptomoedas, vendendo ativos digitais fora das plataformas tradicionais, o que reduz rastreabilidade e fiscalização. A PF identificou que a empresa comprava bitcoins para condenados por lavagem de dinheiro, utilizando contas no Banco Master, sem apresentar a documentação exigida à época pelo Banco Central.

O ponto crítico: 331 operações de câmbio foram realizadas, mas apenas 15 atas societárias foram entregues como justificativa formal. Para investigadores, isso indica simulação documental e violação clara das normas de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro.

O que existe de concreto

- R$ 2,8 bilhões em remessas internacionais sob apuração
- Documentos com indícios de falsificação, gerados no mesmo dia ou com minutos de diferença
- Uso de justificativa contábil que reduzia o IOF de 1,1% para 0,38%, diminuindo carga tributária
- Relatório da PF afirmando que instituições financeiras “deliberadamente fecharam os olhos para a realidade de seus clientes”

- Abertura de procedimento próprio pelo Banco Central após receber informações da PF

As investigações fazem parte de desdobramentos da Operação Colossus, iniciada em 2022, que monitora R$ 60 bilhões em movimentações suspeitas, sendo R$ 8 bilhões apenas em operações de câmbio.

Como o PCC teria lavado dinheiro via Banco Master

Segundo a PF, o esquema funcionaria assim:

  1. Recursos ilícitos do PCC eram enviados a intermediários

  2. Esses valores chegavam à OWS, que operava criptoativos fora do sistema tradicional

  3. O Banco Master processava as operações de câmbio com documentação insuficiente ou irregular

  4. O dinheiro retornava ao sistema financeiro com aparência de legalidade, convertido em ativos digitais

Um dos personagens centrais é o corretor Dante Felipini, o “criptoboy”, condenado em 2025 a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Ele enviou mais de R$ 700 milhões à OWS e, segundo a PF, adquiriu bitcoins para um laranja de liderança do PCC.

A direção do banco sabia?

Essa é a pergunta-chave, e a mais explosiva.

A PF trabalha com duas hipóteses:

  • O banco sabia e fez vista grossa, violando deveres de diligência

  • O banco não sabia, o que indicaria incompetência grave nos controles internos

Em ambos os cenários, o diagnóstico é devastador. Ou houve conivência, ou houve negligência estrutural incompatível com uma instituição financeira que opera câmbio internacional bilionário.

A defesa do Banco Master

Em nota, o Banco Master afirmou que:

“As apurações foram objeto de acordo firmado com o Banco Central, que encerrou o caso no âmbito administrativo, sem reconhecimento de irregularidade.”

O valor da multa aplicada no acordo não foi divulgado, o que também levanta questionamentos sobre transparência.

Um sistema que falhou

Outros bancos, como Topázio, MS Bank e UBS (Suíça), romperam relações com a OWS após consultas ao Banco Central. O Master, não. Só após a escalada do caso vieram ajustes regulatórios, incluindo a mudança nas regras de câmbio com criptoativos, endurecidas novamente a partir do fim de 2025.

Conclusão

O caso Banco Master não é apenas sobre uma instituição. É sobre como o crime organizado aprendeu a se vestir de legalidade, explorando brechas regulatórias, fragilidades de compliance e a lentidão do Estado.

Se ficar comprovado que o banco fez vista grossa, trata-se de conivência criminosa.
Se não sabia, é prova de incompetência inaceitável.

Em qualquer das hipóteses, o recado da investigação é claro: o sistema financeiro brasileiro ainda é vulnerável, e o PCC sabe exatamente onde cutucar.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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