
A coluna Gigantes do Direito, do Passado e do Presente presta hoje uma homenagem à altura de um homem que não coube apenas nos códigos, nem se limitou aos plenários. Raimundo Yasbeck Asfora foi desses raros personagens que conseguiram unir Direito, política e cultura numa mesma trajetória, como quem costura lei e verso no mesmo tecido da história. Jurisconsulto respeitado, poeta sensível e político combativo, marcou seu tempo e deixou marcas profundas na Paraíba e no Brasil.
Nascido em Fortaleza, em 26 de novembro de 1930, Asfora tornou-se, por escolha e vocação, campinense de coração. Campina Grande foi mais que endereço, foi palco, trincheira e inspiração. Ali, ainda jovem, entendeu que o Direito não serve apenas para organizar a sociedade, mas para defendê-la, sobretudo quando os ventos da injustiça sopram mais fortes.
Filho de Elias Hissa Asfora e Orminda Yasbeck Asfora, neto de imigrantes libanesa e sírio, carregava na formação familiar o espírito do diálogo, da resistência e da palavra, valores que mais tarde transbordariam tanto nos tribunais quanto nos palcos da política e da literatura. Desde cedo, mostrou inclinação para as causas coletivas, atuando em grêmios estudantis e movimentos em defesa dos estudantes secundaristas.
Sua formação jurídica se deu na tradicional Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, onde se formou em 1954. Ali, bebeu da fonte clássica do pensamento jurídico brasileiro, mas jamais se afastou da realidade social nordestina. Para Asfora, o Direito não era peça de museu, era instrumento vivo, a ser usado com técnica, coragem e sensibilidade.
Ainda estudante, já exercia liderança. Em Campina Grande, ao lado de Félix de Souza Araújo, fundou a Casa do Estudante, iniciativa que revela muito de sua visão humanista, garantir acesso, dignidade e oportunidade. Antes mesmo de concluir o curso, foi nomeado secretário de ação social, sinal de que sua vocação pública antecedia qualquer diploma.
Na política, sua trajetória foi intensa e consistente. Vereador em 1955, deputado estadual em 1958, deixou marcas institucionais, como o projeto que batizou a Assembleia Legislativa da Paraíba de Casa Presidente Epitácio Pessoa, gesto simbólico de reverência à história republicana. Atuou também como assessor ministerial, procurador da Fazenda e suplente de deputado federal, sempre transitanto entre a técnica jurídica e o jogo político.
Em tempos de exceção, soube navegar sem abdicar da inteligência crítica. Ocupou cargos relevantes na administração pública, foi advogado da Companhia Vale do Rio Doce, assessor no Ministério das Minas e Energia e secretário municipal em Campina Grande. Em cada função, manteve o traço que o definia, rigor jurídico com visão social, como quem interpreta a lei sem perder de vista o povo.
De volta ao centro da política nos anos 1980, foi eleito vice-prefeito de Campina Grande em 1976 e, mais tarde, deputado federal em 1982, com expressiva votação. No Congresso, escreveu um de seus capítulos mais simbólicos ao votar a favor da Emenda Dante de Oliveira, alinhando-se ao movimento pelas Diretas Já. Ali, o jurista encontrou o cidadão, o político, o democrata.
Em 1986, escolhido vice-governador na chapa de Tarcísio Burity, parecia alcançar o ápice de sua carreira pública. Mas o destino, muitas vezes injusto até com os justos, interrompeu brutalmente essa caminhada. Raimundo Asfora morreu em 6 de março de 1987, aos 56 anos, poucos dias antes de tomar posse. O que inicialmente foi tratado como suicídio foi posteriormente desmentido por laudo técnico, que apontou para homicídio, fato que até hoje ecoa como ferida aberta na memória política paraibana.
Mas reduzir Asfora à tragédia seria injustiça. Ele também foi poeta e letrista, alguém que compreendia que a palavra pode absolver, acusar ou consolar. Sua produção cultural dialogava com sua visão jurídica, havia métrica, mas também emoção; havia forma, mas sobretudo conteúdo. Para ele, a linguagem era ponte, nunca muro.
Casado duas vezes, pai de sete filhos, deixou descendência também na vida pública, Gilbran Asfora, um de seus filhos, seguiu carreira política como deputado estadual. O legado, portanto, não foi apenas institucional, mas também familiar e simbólico, daqueles que atravessam gerações.
Raimundo Asfora foi, em essência, um divisor de águas. Fez do Direito uma ferramenta de transformação, da política um espaço de enfrentamento e da cultura um abrigo para a alma. Jurista que pensava, político que sentia, poeta que lutava. Um gigante que compreendeu, como poucos, que a Justiça, quando não é humana, vira apenas papel; e que a palavra, quando é justa, pode mudar a História.
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