
A indicação de Francisco Lucas Costa Veloso, o Chico Lucas, para comandar a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) projeta o Piauí para o centro do debate nacional sobre segurança pública e, ao mesmo tempo, impõe uma análise cuidadosa sobre o legado que ele deixa no estado e a expertise que efetivamente levará a Brasília. Trata-se de uma conquista pessoal relevante para um gestor que ocupou, por três anos, uma das pastas mais sensíveis do governo Rafael Fonteles.
Do ponto de vista técnico, Chico Lucas chega à Senasp com currículo sólido. Advogado formado pela Universidade Federal do Piauí, ex-procurador do Estado e ex-presidente da Associação Piauiense dos Procuradores do Estado, construiu sua trajetória no campo jurídico-administrativo, com forte ênfase em gestão pública e articulação institucional. Esse perfil, em tese, dialoga com a missão da Senasp, que é formular políticas nacionais e integrar ações entre União e estados.
O governo estadual vende a gestão de Chico Lucas como exitosa, apoiando-se em números que indicariam redução de determinados crimes patrimoniais, aumento de apreensões de drogas, prisões de lideranças do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho, além da desarticulação de células e até de laboratório clandestino de cocaína. É inegável que operações policiais se intensificaram e que houve esforço concreto para enfrentar o crime organizado.
No entanto, o quadro real da segurança pública piauiense é mais complexo e menos confortável do que os releases oficiais sugerem. Durante o mesmo período, cresceram de forma preocupante os índices de feminicídio e de violência letal contra pessoas trans, gays e lésbicas. Esses dados revelam falhas estruturais na prevenção, na proteção de grupos vulneráveis e na articulação entre segurança pública e políticas sociais, um ponto sensível para qualquer gestor que se proponha a pensar segurança em sentido amplo.
O maior gargalo, porém, continua sendo o avanço vertiginoso das facções criminosas. Nos últimos anos, o crime organizado se espalhou pelo Piauí como um câncer em metástase. Do litoral ao extremo sul, do sertão às áreas urbanas, facções passaram a impor regras, controlar territórios, explorar economias ilícitas e decidir, na prática, quem vive e quem morre. A presença do Estado, embora mais ostensiva em operações pontuais, segue insuficiente para retomar o controle permanente desses espaços.
É verdade que o governo Governo do Estado do Piauí e o próprio Chico Lucas nunca negaram o problema nem cruzaram os braços. Houve prisões, apreensões recordes de entorpecentes e ações integradas que incomodaram as facções. Ainda assim, o saldo estratégico é frustrante: as organizações criminosas permanecem ativas, adaptáveis e profundamente enraizadas no tecido social e econômico do estado.
Curiosamente, a política pública mais reconhecida pela população foi a de devolução de aparelhos celulares furtados ou roubados aos seus legítimos donos. A iniciativa tem mérito, aproxima a polícia do cidadão e gera sensação de eficiência imediata. Mas é, no fundo, um alívio paliativo. Não reduziu de forma estrutural os furtos e roubos, que seguem ocorrendo tanto na capital quanto no interior, nem toca o núcleo financeiro das facções.
Diante desse histórico, a pergunta inevitável é: qual expertise Chico Lucas levará para Brasília? Sua principal contribuição parece estar menos em resultados definitivos e mais na experiência de lidar com um cenário adverso, marcado pela expansão do crime organizado em um estado periférico do sistema nacional de segurança. Essa vivência pode ser valiosa para a Senasp, desde que convertida em políticas de longo prazo, e não apenas em operações reativas.
Na esfera federal, Chico Lucas terá a missão de pensar integração real entre forças policiais, padronização de inteligência, financiamento adequado e coordenação efetiva entre União, estados e municípios. Se levar para Brasília apenas o modelo operacional que mostrou limites no Piauí, sua passagem pela Senasp corre o risco de ser mais simbólica do que transformadora.
A nomeação feita pelo novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, sinaliza aposta em um quadro nordestino e em alguém com experiência direta no enfrentamento às facções. Resta saber se Chico Lucas conseguirá transformar uma gestão marcada por esforços visíveis, mas resultados contraditórios, em uma política nacional capaz de enfrentar, de fato, o crime organizado que hoje avança não apenas sobre estados como o Piauí, mas sobre o país inteiro.
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