
Entre os nove governadores do Nordeste, especialmente entre os gestores petistas, poucos casos expõem tamanho grau de esgotamento político e administrativo quanto o da governadora Fátima Bezerra. O Rio Grande do Norte vive hoje uma situação que ultrapassa o desgaste comum de fim de mandato e adentra o território do vexame institucional. O governo tornou-se tão pesado que a sucessão passou a ser vista não como prêmio, mas como castigo.
Com o olhar voltado para uma cadeira no Senado em 2026, Fátima Bezerra precisa, por força da lei eleitoral, renunciar ao cargo caso confirme a candidatura. O problema começa exatamente aí. O primeiro na linha sucessória, o vice-governador Walter Alves, comunicou oficialmente que não assumirá o governo. Mais do que isso, anunciou que também renunciará, sob o argumento de que pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
A recusa do vice não é apenas um gesto político. É um sintoma. Walter Alves sinaliza que assumir o governo, mesmo por poucos meses, pode representar um passivo eleitoral difícil de carregar. Governar um Estado combalido, com finanças frágeis, serviços públicos pressionados e alto desgaste político, não é exatamente um ativo para quem busca votos.
O segundo na linha sucessória é o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira de Souza, que também é pré-candidato nas eleições de 2026. Pela mesma lógica, assumir o Executivo significaria herdar um governo impopular e dividir a conta de um projeto que dá claros sinais de esgotamento. O resultado é um vácuo institucional que empurra a responsabilidade para o terceiro da fila.
É aí que entra o presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, o desembargador Ibanez Monteiro. Pela Constituição estadual e pelas regras gerais do ordenamento jurídico, o chefe do Judiciário assume interinamente o governo quando governador e vice renunciam e o presidente da Assembleia está impedido. Tecnicamente, ele não pode se recusar sem apresentar justificativa legal robusta, mas, politicamente, a resistência é compreensível.
O temor não é institucional, é político. Assumir o governo significa administrar uma bomba de efeito retardado instalada no Palácio de Despachos de Lagoa Nova. Dívidas, greves latentes, crise na segurança, gargalos na saúde e um ambiente político hostil. Ainda que não dispute eleição, o presidente do TJ sabe que sua imagem pode ser arranhada ao conduzir um governo em frangalhos.
Confirmadas as renúncias de Fátima e Walter Alves, o cenário mais provável é a realização de eleições indiretas. Nesse modelo, o governador não é escolhido pelo voto popular, mas pelos deputados estaduais, em votação na Assembleia Legislativa. Trata-se de um mandato tampão, válido apenas até o fim do período atual, sem nova eleição direta.
Nesse tipo de eleição, qualquer cidadão que atenda aos requisitos constitucionais pode ser escolhido, desde que consiga maioria entre os parlamentares. Já há, inclusive, nomes ventilados no campo governista, como secretários e deputados ligados ao PT. O problema é que poucos parecem dispostos a assumir um governo politicamente falido.
Enquanto isso, Walter Alves já reposiciona suas peças, alinhando-se a forças de oposição e ao grupo liderado pelo prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, que desponta como favorito nas pesquisas para o governo estadual. O gesto não é apenas eleitoral, é um atestado público de ruptura com o projeto de Fátima Bezerra.
No fundo, a pergunta que ecoa nos bastidores é simples e cruel: por que ninguém quer assumir o governo? A resposta também é direta. Porque a gestão de Fátima Bezerra se tornou politicamente tóxica. Alta rejeição, promessas não cumpridas, dificuldades fiscais persistentes e incapacidade de construir uma sucessão minimamente organizada transformaram o Palácio em um fardo.
O Rio Grande do Norte assiste, assim, a uma cena rara e reveladora. Um governo tão desgastado que seus próprios aliados fogem da cadeira principal. Quando até a linha sucessória entra em colapso, o problema já não é eleitoral. É estrutural.
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