
O assessor especial do governo do Piauí, Washington Bandeira, sabe que lealdade declarada não garante vaga. Declarar-se “soldado” do governador Rafael Fonteles não assegura, por si só, o posto de vice na chapa governista. A política real exige mais do que discursos de fidelidade, exige força, articulação e leitura fria do tabuleiro.
Bandeira também sabe que enfrenta um peso pesado. Do outro lado está Wellington Dias, a maior expressão do petismo e da esquerda no Estado, líder histórico, estrategista experiente e figura que ainda dita o ritmo interno do partido. E mais: Dias não esconde sua intenção de impor o próprio filho, Vinícius Dias, para compor uma chapa pura do PT.
Diante desse cenário, Washington Bandeira opta pelo diálogo. Anuncia que pretende “fumar o cachimbo da paz” com Wellington Dias. O gesto, à primeira vista, soa altruísta e moderador, quase um apelo à conciliação interna. Mas a política raramente se move apenas pela simbologia. E é exatamente aí que, como dizem nos bastidores, “a cobra vai fumar”.
Os observadores mais experientes lembram que o “Índio” nunca recusa uma conversa. Mas também nunca entra nela desarmado. Wellington Dias domina, como poucos, a arte do convencimento. É um "pajé da política", capaz de transformar adversários circunstanciais em aliados improváveis, ou, em cabos eleitorais do projeto que já estava traçado desde o início.
O risco para Washington Bandeira é concreto. Muito mais concreto do que a chance de convencer Wellington Dias a abrir mão de Vinícius. O encontro pode terminar com apertos de mão, fotos sorridentes e discursos sobre unidade, enquanto, nos bastidores, Bandeira sai convencido de que o melhor para o projeto é a sua própria desistência.
Essa não é uma disputa menor. Os articulistas políticos sabem que se trata de uma "briga de cachorro grande", mas agora o tabuleiro fica explícito. Em 2030 haverá apenas uma vaga em disputa para o Senado da República, no Piauí, justamente a cadeira hoje ocupada por Wellington Dias, que, evidentemente, almeja a reeleição.
Do outro lado, está Rafael Fonteles. Embora repita publicamente que “não quer” o Senado, a política não costuma respeitar negativas retóricas. O destino natural de um governador bem avaliado, no fim do segundo mandato, é a Câmara Alta. Negar isso é desconhecer a lógica do poder. A cadeira de senador não é uma opção, é um desfecho previsível.
Mas há um detalhe decisivo, frequentemente omitido no discurso público. Tanto a reeleição de Wellington Dias quanto a eventual candidatura de Rafael Fonteles ao Senado dependerão, obrigatoriamente, do aval de quem estiver sentado no Palácio de Karnak, com a caneta na mão, controlando a máquina, o tempo político e as alianças. E até dinheiro de empréstimos que certamente virão.
É aqui que tudo se esclarece. Entenderam agora o motivo dessa “briga de foice”? Não é a vice. Nunca foi. A vice é apenas o meio, não o fim. O que está em jogo é quem terá o poder de autorizar, pagar, vetar ou impor projetos em 2030.
E que não se romantize o embate. Não é o futuro do Piauí que está em disputa. Não é desenvolvimento, não é saúde, não é educação, não é segurança pública, muito menos empreendedorismo ou atração de investimentos. Não. Tudo gira em torno de vaidades, sobrevivência política e ambições pessoais. E nessa fogueira de vaidades quem não entende se queima.
Nesse jogo, Washington Bandeira e Vinícius Dias são peças descartáveis, usados apenas e tão somente, como trampolim. Servem para medir forças, tensionar o debate e ocupar espaço enquanto os verdadeiros protagonistas ajustam suas estratégias. O salto não será deles. O salto é de quem observa agora e decide quem controlará o amanhã. Quem será a marionete!
A política piauiense já escolheu o roteiro. Nada é pelo povo. Tudo é por projetos pessoais. E o ensaio geral começa agora, antes que o eleitor perceba que, mais uma vez, a plateia não foi convidada para decidir nada.
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