
Baixada a poeira do ataque que literalmente pinçou Nicolás Maduro e sua esposa do Palácio de Miraflores, em Caracas, a Venezuela respira um ar menos opressivo, mas ainda profundamente tenso. É como alguém que sai de uma sala cheia de fumaça, mas descobre que o prédio continua em chamas.
A pergunta central, que incomoda nas ruas, nas redações e nos gabinetes diplomáticos, é simples e explosiva, quem governa, de fato e de direito, a Venezuela agora?
Formalmente, o poder está nas mãos de Delcy Rodríguez, alçada à condição de presidente interina. Politicamente, porém, o cenário é tudo menos simples. Sua permanência foi negociada com Washington ou imposta por um chavismo que se recusa a largar o osso?
A dúvida é legítima. Afinal, Delcy não é uma outsider, tampouco uma figura de transição neutra. Ela era o braço direito de Maduro, a mulher encarregada dos dossiês mais sensíveis do regime. Em termos metafóricos, é como trocar o piloto do avião, mas manter o mesmo plano de voo, o mesmo combustível e os mesmos passageiros algemados.
A mudança abrupta de tom, do discurso agressivo para a carta conciliatória, levanta outra suspeita inevitável, foi estratégia de sobrevivência, jogada tática a serviço do chavismo ou sinalização direta a Washington? Ou, talvez, nada disso. Talvez o roteiro já estivesse escrito.
As revelações de que Delcy teria sido sondada em outubro, num encontro no Catar, por emissários do então presidente Donald Trump, não podem ser tratadas como detalhe irrelevante. Em geopolítica, coincidência costuma ser apenas um nome elegante para acordo mal disfarçado.
Se confirmadas, essas conversas indicariam que a sucessão de Maduro já vinha sendo desenhada antes mesmo do ataque, como uma cirurgia marcada, o bisturi só entrou quando o paciente já estava anestesiado. O ataque, nesse sentido, não seria o início do processo, mas sua etapa mais ruidosa.
O fato é que Delcy surge, hoje, como uma figura funcional para Washington. Não exatamente confiável, muito menos democrática, mas útil. E na política internacional, utilidade costuma pesar mais do que virtude. Seu histórico de negociações com o setor petrolífero, incluindo acordos com empresas estrangeiras, a transforma numa ponte possível, ainda que instável, entre os interesses americanos e a necessidade de manter algum controle interno.
É aí que mora o paradoxo, retirar Maduro, mas deixar o chavismo intacto, apenas com uma nova gerente. Para o povo venezuelano, que sonha com liberdade civil, econômica e política, isso soa como trocar as grades da cela, mantendo o mesmo carcereiro.
Enquanto a população imagina um novo começo, com eleições livres e abertura real, o poder segue concentrado nas mãos do tripé clássico do regime, Delcy no Executivo, os militares garantindo a ordem e os aparelhos de segurança assegurando o medo. Uma mudança cosmética, não estrutural.
O suposto apoio de Washington à presidente interina agrava ainda mais a sensação de frustração. Para muitos venezuelanos, é como ser resgatado de um naufrágio apenas para descobrir que o novo capitão é o antigo imediato, fiel ao comandante que afundou o navio.
Nada disso, é importante frisar, é apresentado aqui como verdade absoluta. São especulações? Sim. Mas especulações ancoradas em fatos pretéritos, movimentos diplomáticos recentes e interesses econômicos evidentes. No pós-ataque, a imprensa trabalha com peças incompletas, informações fragmentadas e silêncios estratégicos. Ainda assim, analisar é não apenas legítimo, mas necessário.
A Venezuela, hoje, vive um intervalo perigoso, entre a queda de um homem e a permanência de um sistema. Se Delcy Rodríguez será ponte para uma transição democrática ou apenas uma tutora do chavismo em nova embalagem, só o tempo dirá. Mas uma coisa já está clara, o país saiu do porão, mas ainda não alcançou a rua.
E como toda transição mal resolvida, o risco é trocar a ditadura explícita por uma tutela disfarçada, mais palatável para o exterior, mas igualmente indigesta para quem vive dentro de casa.
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