
A movimentação mais recente joga luz novamente sobre a relação entre Brasil e Venezuela. Reportagem do jornalista Lauro Jardim mostrou que a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, é dona de poços de petróleo no país vizinho desde 2024. Em novembro, Joesley esteve em Caracas e foi recebido por Nicolás Maduro em audiência reservada. O encontro, às vésperas da operação que tirou o líder do poder, foi visto como sinal do acesso que o empresário mantinha no Palácio de Miraflores. Detalhes desses negócios seguem sob sigilo após o Itamaraty classificar telegramas diplomáticos sobre o tema por cinco anos.
Esse movimento se soma a um histórico incômodo. Depoimentos da Lava Jato relataram pagamentos em dinheiro vivo a marqueteiros ligados ao PT por campanhas na Venezuela. Segundo delação de Mônica Moura, ela e João Santana receberam mais de dez milhões de dólares em 2012, à época em que Maduro era chanceler, com parte das entregas feitas em Caracas. O contato inicial, segundo o relato, passou por Lula e as viagens foram organizadas por José Dirceu. Os processos foram posteriormente anulados pelo Supremo, mas o enredo consolidou a percepção de uma relação política e financeira extremamente próxima.
No campo oficial, o vínculo também aparece na conta bilionária que ficou para o Brasil. A dívida venezuelana com a União supera dez bilhões de reais e o calote já dura sete anos. Os atrasos se referem a financiamentos de exportações e grandes obras, muitos contratados nos anos de governos do PT, com apoio de bancos públicos e cobertura de seguro pelo Tesouro. Com a inadimplência desde 2018, o governo brasileiro teve de indenizar bancos e assumiu o prejuízo, que continua crescendo com juros. A Venezuela não responde às cobranças formais e não há previsão de acordo.
Os financiamentos incluíram projetos como metrôs, estaleiros e siderúrgicas e foram lastreados pelo Fundo de Garantia à Exportação. Críticos apontam que operações desse porte avançaram com garantias frágeis e alto risco político. O BNDES afirma que todos os desembolsos foram feitos no Brasil, diretamente aos exportadores, e que novas linhas estão vetadas enquanto o país estiver inadimplente. Na prática, a conta ficou com o contribuinte brasileiro.
O conjunto desses episódios ajuda a explicar a pressão política atual. De um lado, reaparece o debate sobre a proximidade do PT com o regime de Maduro ao longo dos anos, com apoio diplomático, articulações eleitorais e negócios reservados. De outro, há a fatura concreta das dívidas e dos financiamentos que não foram pagos. A derrubada de Maduro e os movimentos empresariais recentes na área de petróleo reabrem perguntas que seguem sem resposta completa: quem ganhou, quem perdeu e quanto dessa história ainda está sob sigilo.
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