
A reação do governo brasileiro à captura de Nicolás Maduro expôs, de forma cristalina, uma contradição moral e política que já não cabe mais sob o tapete do discurso diplomático. Ao classificar como “inaceitável” a ação dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu um lado — e não foi o da democracia, dos direitos humanos ou das vítimas do regime venezuelano.
Sob o manto da defesa da soberania nacional, o Palácio do Planalto saiu em defesa prática de um ditador acusado de transformar seu país em um narco-Estado, de perseguir opositores, censurar a imprensa, fraudar eleições e governar pela violência. Não se trata aqui de um debate teórico sobre intervenção internacional, mas de um fato político concreto: a captura de um líder apontado como chefe de uma organização criminosa internacional, o Cartel de los Soles, segundo autoridades norte-americanas.
Enquanto o Brasil ergue a bandeira da “não intervenção” como dogma absoluto, países democráticos da América Latina reagiram de forma oposta. A Argentina, sob a liderança do presidente Javier Milei, não apenas apoiou a presença americana na região como celebrou a queda de Maduro. Para Buenos Aires, a captura de um ditador não é uma ameaça à paz, mas uma oportunidade de libertação para um povo sequestrado por décadas.
O contraste é gritante. De um lado, governos que reconhecem que não há soberania legítima quando o poder se sustenta na tortura, no cárcere político e no assassinato de dissidentes. De outro, o governo brasileiro, que prefere equiparar um ditador sanguinário a um chefe de Estado democrático, como se ambos merecessem a mesma proteção jurídica e moral.
Ao afirmar que a ação dos EUA “lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina”, Lula ignora deliberadamente os piores momentos vividos pelos próprios venezuelanos sob o chavismo-madurismo. Ignora os presos políticos, os exilados, os mortos, a fome e o colapso institucional. Em nome de um multilateralismo abstrato, o Brasil fecha os olhos para crimes concretos.
Mais grave ainda é o apelo automático à Organização das Nações Unidas, como se a ONU tivesse sido eficaz em conter ditaduras, genocídios ou Estados capturados pelo crime organizado. O discurso soa conhecido: muita retórica, pouca empatia com as vítimas e nenhuma cobrança real aos algozes.
A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: até que ponto a defesa da soberania não se tornou apenas um álibi elegante para proteger tiranos ideologicamente alinhados? Quando o Brasil condena a captura de Maduro, não está defendendo a Venezuela como nação, mas o regime que a mantém refém.
A história julga com rigor aqueles que, diante da barbárie, optam pela neutralidade conveniente. E, neste episódio, o governo brasileiro não foi neutro. Escolheu o lado errado.
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