
Há artistas que, ao descerem do palco, levam consigo a grandeza da arte para a vida cotidiana. Outros, infelizmente, parecem trocar o talento cênico por uma verborragia agressiva, que transforma o debate público em trincheira moral. José de Abreu pertence, hoje, a esse segundo grupo. Brilhante intérprete de personagens complexos, ele se revela raso, áspero e desumano quando abandona o texto escrito e assume o improviso das redes sociais.
Não se trata aqui de discordância política simples. Divergir é saudável, necessário e democrático. O problema começa quando a discordância vira escárnio, quando a morte alheia se transforma em piada privada e quando o luto é tratado como oportunidade retórica. Em Abreu, a palavra não é ponte, é pedra. Não é argumento, é cuspe verbal.
Ao comentar a morte de figuras públicas associadas à direita, o ator repete um padrão perturbador: desumaniza o morto, reduz sua existência a um rótulo político e sentencia, sem pudor, uma espécie de condenação pós-morte. No caso do empresário Oscar Maroni, Abreu foi direto ao ataque, chamando-o de “bolsonarista canalha” e desejando que fosse “para o diabo”. Não discutiu ideias, não analisou condutas, não contextualizou trajetórias. Preferiu o atalho do insulto. É fácil. É ruidoso. E é moralmente pobre.
Antes disso, diante do assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, Abreu lançou mão de uma ironia mórbida ao escrever “foi visitar o Olavo de Carvalho”. A frase, curta e aparentemente espirituosa, carrega uma carga simbólica pesada. Não é humor. É deboche diante da morte violenta. É a negação explícita da empatia. E quando a empatia morre, algo essencial na convivência humana morre junto.
O que leva alguém tão talentoso a adotar uma postura tão abjeta fora da ficção? Parte da resposta talvez esteja na confusão entre personagem e pessoa. Abreu parece atuar permanentemente, como se estivesse sempre em cena, sempre buscando aplausos de uma plateia ideológica específica. O problema é que, na vida real, não há corte de edição, não há trilha sonora para suavizar a crueldade, nem autor para justificar a fala.
Há ainda um dado incômodo que não pode ser ignorado. José de Abreu é frequentemente associado a uma esquerda que se diz anti-elitista, mas que usufrui largamente dos mecanismos do Estado, como a Lei Rouanet, nem sempre acompanhados da transparência e da prestação de contas que se exige de qualquer beneficiário de recursos públicos. Defender o Estado quando ele banca, mas desprezar cidadãos quando eles pensam diferente, revela uma contradição ética difícil de esconder.
A celebração pública da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, com direito a champanhe estourado após decisão do Supremo Tribunal Federal, assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, segue a mesma lógica. Não se discute o mérito jurídico do caso, mas a postura simbólica. Comemorar a prisão de um adversário político como se fosse um gol em final de campeonato não engrandece a democracia, apenas escancara o ressentimento.
O maior equívoco de José de Abreu, e de uma parcela da esquerda que ele vocaliza com entusiasmo, não está apenas em defender governos, regimes ou ideias controversas. Está em negar ao outro o direito de existir fora da própria bolha. Para esse pensamento, quem diverge não é adversário, é inimigo. E inimigos, na lógica tribal, não merecem luto, respeito ou silêncio.
No palco, José de Abreu emociona porque interpreta conflitos humanos. Fora dele, parece esquecer que a humanidade não termina na fronteira ideológica. E esse é o paradoxo mais cruel: um ator capaz de compreender a dor de personagens fictícios, mas incapaz de respeitar a dor real de famílias que enterram seus mortos. A arte o engrandece. As palavras, infelizmente, o diminuem.
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