
O sequestro-relâmpago do ex-secretário municipal Alessandro Eulálio, ocorrido em plena luz da manhã na capital Teresina, não é um ponto fora da curva. É, ao contrário, mais um capítulo de uma rotina de violência diária, constante e cada vez mais ousada que se impõe sobre o Piauí. O crime já não pede licença, não respeita cargo, endereço ou horário. Age como quem se sente em casa, e, pior, com a sensação de que dificilmente será incomodado.
A dinâmica do sequestro revela um grau de organização que desmonta qualquer discurso de criminalidade ocasional. Rouba-se um carro, sequestra-se o motorista, invade-se uma residência, rende-se uma família inteira e transforma-se a vítima em caixa eletrônico ambulante. Tudo isso em menos de uma hora. Não é improviso. É método. É logística. É crime profissionalizado, operando com a frieza de quem sabe exatamente o que está fazendo.
A capital piauiense vive sob uma ação criminosa permanente, que avança dos assaltos comuns para modalidades mais graves, como sequestros, execuções e invasões domiciliares. A cidade já não dorme tranquila. E quem ainda dorme, dorme mal. A sensação é a de que o cidadão virou figurante em um território disputado por facções e quadrilhas, enquanto o Estado corre atrás do prejuízo.
É preciso reconhecer: há esforços das forças de segurança. Prisões são feitas, operações são deflagradas, estatísticas são apresentadas. Mas o fato bruto insiste em contrariar os relatórios oficiais. O crime tem levado vantagem. E quando isso acontece, não há maquiagem institucional que esconda o sentimento coletivo de humilhação. A sociedade se sente exposta, vulnerável, acuada. Em alguns casos, não apenas humilhada, mas morta.
O sequestro de um ex-secretário não choca por quem ele é, mas pelo que simboliza. Se alguém com visibilidade pública, residência conhecida e histórico político pode ser alvo com tamanha facilidade, o que sobra para o cidadão comum? A mensagem do crime é direta e cruel: ninguém está fora do alcance.
Enquanto isso, facções avançam, quadrilhas se especializam e a criminalidade se adapta mais rápido do que as respostas do poder público. O Estado joga na defensiva; o crime, no ataque. E nessa partida desigual, quem perde é sempre o mesmo, o cidadão, que paga impostos altos, vive com medo e enterra seus mortos cedo demais.
Não se trata de alarmismo. Trata-se de realidade. O Piauí vive um momento em que normalizar a violência virou parte do problema. O sequestro-relâmpago desta semana não pode ser tratado como “mais um caso”. Ele é um aviso. E avisos, quando ignorados, costumam cobrar um preço ainda mais alto depois.
A pergunta que se impõe não é apenas “quem foi sequestrado”, mas até quando a sociedade aceitará viver sequestrada pelo medo.
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