
O jurista e colunista do UOL Wálter Maierovitch não criou polêmica artificial nem descobriu sentimentos inéditos ao comentar, no UOL News, os episódios recentes envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Ele apenas verbalizou, com ironia afiada e comparações domésticas, aquilo que grande parte do brasileiro comum já pensa, mas raramente vê dito em voz alta, especialmente quando o assunto é a conduta e a imagem da mais alta Corte do país.
A declaração mais ruidosa veio sem anestesia:
“O Supremo não pode ficar com essa imagem de lupanário.”
A frase causou espanto em alguns círculos e gargalhadas nervosas em outros, mas o sentido é cristalino. Maierovitch não descreveu o STF como um bordel literal, alertou que a percepção pública da Corte caminha perigosamente para a desordem moral e institucional, sobretudo quando surgem episódios envolvendo familiares de ministros, escritórios de advocacia e negócios privados orbitando decisões judiciais. Em linguagem simples, tribunal constitucional não pode parecer território sem cerca, onde cada galinha cisca para um lado.
Na sequência, o jurista trocou a metáfora urbana pela rural, com ainda mais didatismo:
“Toga não pode ser suja como pau de galinheiro”.
A imagem é grosseira de propósito. A toga simboliza imparcialidade, autoridade e distância dos interesses mundanos. Quando se mistura com negócios, parentescos e relações pouco transparentes, ela perde o simbolismo e vira pano comum, desses que precisam ser esfregados com força para sair o cheiro. Não se trata de estética, trata-se de credibilidade.
É nesse ponto que se encaixa uma lição antiga, mas atual. A máxima atribuída a Júlio César, de que “à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer séria”, atravessou séculos justamente por isso. A frase nasceu quando César se divorciou de sua esposa Pompeia, após ela ser alvo de suspeitas de traição, mesmo sem provas conclusivas. O gesto não foi passional, foi institucional. César deixou claro que, em funções públicas, a aparência de correção é parte inseparável da própria correção. No Judiciário, essa exigência é ainda mais rígida. Não basta o ministro agir dentro da lei, é indispensável que não paire qualquer sombra de conflito, favorecimento ou promiscuidade institucional. Quando isso ocorre, a toga até pode continuar limpa no papel, mas aos olhos da sociedade já começa a parecer encardida.
Ao abordar o episódio envolvendo o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Maierovitch foi direto ao ponto. Não fez acusação criminal nem insinuou ilegalidade comprovada. O alerta foi outro, mais profundo e mais incômodo, o conflito de interesses e, sobretudo, a aparência dele. Em tribunais constitucionais, a confiança pública não se sustenta apenas com decisões técnicas, mas com distância visível de qualquer interesse privado.
Em tom mais propositivo, o jurista destacou como positiva a iniciativa do ministro Edson Fachin:
“Vem em bom momento a ideia de criar um compliance na magistratura”.
A tradução é simples. Regras claras, controles objetivos e transparência, algo que empresas privadas adotam há décadas, enquanto o Judiciário brasileiro ainda resiste como se fosse uma confraria imune a manuais de conduta.
Maierovitch também chamou atenção para o que não foi dito: o silêncio da PGR e da OAB é constrangedor.
Quando ninguém fiscaliza o fiscal, o sistema não entra em crise por ataque externo, ele apodrece por dentro. O barulho não vem da oposição nem das redes sociais, vem do ranger das próprias estruturas.
Wálter Maierovitch não falou nada que choque quem enfrenta fila em repartição pública ou espera anos por uma decisão judicial. Ele apenas disse isso com humor ácido, metáforas fortes e coragem retórica. Não declarou que o STF virou um “puteiro”, mas advertiu que a imagem da Corte não pode caminhar nessa direção. Porque, quando a toga se confunde com o pau de galinheiro, quem perde não é o ministro, é a Justiça. E Justiça, definitivamente, não combina com lama, cercado quebrado nem reputação mal lavada.
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