
“Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais. A esquerda sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação. Não vejo nada mais estúpido do que a esquerda. Uns enfrentam os outros, por grupos, por partidos, por opções", José Saramago.
Volto à pergunta que insistem em me fazer, quase como um espanto moral: por que você abandonou a esquerda? A resposta amadureceu com o tempo e com a observação da realidade. Não foi uma ruptura emocional, foi um rompimento racional. A esquerda contemporânea deixou de ser um campo de debate político para se tornar um sistema fechado de crenças, impermeável a fatos, história e autocrítica.
O esquerdismo moderno tem uma obsessão central: o controle absoluto. Controle da economia, do discurso, da linguagem, da educação, da cultura, da fé, da família e, se possível, da própria consciência individual. O Estado deixa de ser instrumento e passa a ser tutor moral da sociedade, dizendo o que pode, o que não pode e até como o indivíduo deve pensar.
Esse modelo não é novo e tampouco inofensivo. Ele já foi testado exaustivamente. Na União Soviética, o resultado foram expurgos, gulags e milhões de mortos. Em Cuba, sete décadas depois da “revolução”, o povo ainda foge em balsas. Na Venezuela, o socialismo transformou riqueza em escassez e migração em massa. Na Coreia do Norte, o Estado controla até o corte de cabelo.
O padrão se repete porque o problema não é “má execução”, é a essência do projeto. O socialismo não falha apesar de suas ideias, ele falha por causa delas. Centralizar poder, sufocar a iniciativa individual e substituir mérito por obediência política nunca produziu prosperidade. Produziu dependência, medo e silêncio.
A esquerda adora falar em revolução. E de fato ela provoca uma. Mas é uma revolução às avessas. Em vez de elevar a sociedade, ela degrada o tecido social. Onde havia indivíduos livres, surgem identidades artificialmente antagonizadas. Onde havia diálogo, instala-se o conflito permanente.
Nada divide mais do que o esquerdismo. Ele transforma diferenças naturais em trincheiras ideológicas: pobres contra ricos, trabalhadores contra empreendedores, negros contra brancos, homens contra mulheres, heterossexuais contra homossexuais. Não para resolver injustiças, mas para manter a sociedade em tensão, porque o conflito é o combustível do poder ideológico.
A família, núcleo de estabilidade social, passa a ser tratada como obstáculo. A religião, como inimiga. Pais e filhos são colocados em campos opostos, professores substituem valores familiares por cartilhas ideológicas e o Estado assume um papel que nunca lhe pertenceu: reprogramar consciências. Isso não é progresso, é engenharia social.
O discurso é sempre o mesmo: “é para libertar”. Mas o método é coerção. A liberdade prometida termina onde começa o controle do pensamento. Quem discorda vira “ameaça à democracia” ou “inimigo do povo”. Regimes que dizem combater o autoritarismo não toleram dissenso algum.
Aqui cabe um ponto essencial: quando se diz que o esquerdismo opera como uma espécie de doença mental coletiva, isso não é uma crítica moderna ou conservadora. A própria tradição comunista reconheceu o problema. Vladimir Lenin, ainda no contexto da Revolução Russa, classificou o esquerdismo como “uma doença infantil do comunismo”.
Para ele, o radicalismo rígido, intransigente e avesso a compromissos era um distúrbio político, incapaz de compreender a complexidade da realidade. Lenin alertava que essa postura dogmática isolava os militantes, afastava a base operária e transformava a política em um exercício de pureza ideológica estéril, sem resultados práticos. Ou seja, até o fundador do regime percebeu o perigo da loucura ideológica travestida de virtude revolucionária.
O humor ajuda a explicar. O socialismo promete dividir igualmente o bolo, mas esquece de dizer quem vai assar, quem paga os ingredientes e quem será preso por “lucro excessivo”. No fim, não há bolo. Há fila, racionamento e discursos culpando um inimigo invisível.
Líderes do século XX entenderam isso cedo. Margaret Thatcher alertou que o problema do socialismo é que o dinheiro dos outros acaba. Ronald Reagan lembrou que o poder concentrado é inimigo da liberdade. Até figuras populares como Silvio Santos ironizaram a ideia de que sistemas rígidos só funcionam em ambientes fechados, não em sociedades livres.
Jorge Amado expressou sua frustração com a esquerda, especialmente com o comunismo soviético, de forma seca, amarga e definitiva em uma frase que se tornou a mais emblemática de sua ruptura: “Fomos cegos, fomos surdos, fomos mudos”.
O mais trágico é que, mesmo após tantos exemplos históricos, o esquerdismo insiste em se vender como novidade moral. Não é. É um ideário antigo, reciclado com nova linguagem e os mesmos resultados previsíveis: promete igualdade e entrega nivelamento por baixo, promete justiça e entrega arbitrariedade, promete liberdade e constrói uma nova senzala ideológica.
Como contraponto histórico e intelectual, vale lembrar que Karl Marx, frequentemente invocado como patrono do socialismo real, alertou contra as próprias deformações autoritárias do comunismo. Marx rejeitava o “comunismo grosseiro”, baseado no igualitarismo forçado, na coletivização da miséria e na supressão da individualidade, afirmando que sem liberdade individual não há emancipação humana.
Por isso me afastei. Não por ódio, nem por modismo, mas por lucidez. Não dá mais para romantizar um sistema que fracassou em todos os lugares onde foi aplicado. Crescer politicamente é aceitar que boas intenções não salvam ideias ruins.
A maturidade política começa quando se entende que liberdade não nasce do controle, prosperidade não nasce da coerção e justiça não nasce da divisão artificial da sociedade. O esquerdismo precisa do conflito para existir. Eu prefiro um projeto que aposte na responsabilidade, na liberdade e na dignidade do indivíduo. Foi exatamente isso que me fez seguir outro caminho.
Deixo claro que não falo por achismo, nem por impulso ideológico. Falo depois de estudar profundamente a teoria socialista e marxista, de ler seus formuladores, seus intérpretes e, sobretudo, de ver a prática com os próprios olhos. Visitei duas vezes o maior espelho comunista das Américas, Cuba, a ilha de Fidel Castro, caminhei por suas ruas em Havana, conversei com seu povo nas províncias de Matanzas, Varadero, Cárdenas, Santa Clara, Pinar del Río e Cienfuegos, observei seu cotidiano, sua economia paralisada no tempo e no espaço e, ainda, sua espiritualidade e sua liberdade sufocadas.
E foi justamente esse confronto entre teoria e realidade que me levou a um despertar da letargia ideológica e à assimilação de uma convicção definitiva, madura e inegociável: o comunismo é a mais perfeita tradução do fracasso material e espiritual do homem.
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